o sucesso do fracasso

 

 

I.

Não sei dizer com clareza o motivo pelo qual estávamos correndo tanto. É como se a cidade tivesse sido subitamente atacada por uma peste e tentávamos nos livrar de ser contaminados. Voltávamos para Brasília com esperança de o ar seco do planalto ser capaz de nos resguardar dos sintomas ou neutralizar o avanço da bactéria, vírus ou lá o que fosse aquilo. Mas estou sendo dramático em excesso.

Na verdade, estávamos com muita vontade de voltar para nossas casas e rotinas e não havia qualquer perseguidor no nosso encalço. A pressa com que dirigíamos o carro, ou melhor, com que Aguinaldo dirigia, porque o carro era dele e só ele tocava no volante, parecia dar a entender que fugíamos da peste. Havia uma angústia mal reprimida e todas as histórias divertidas que havíamos contado no caminho de ida haviam sido deixadas na pequena cidade à beira-mar para onde havíamos nos dirigido dias antes, na intenção de participar da comemoração dos dez anos da festa literária. O silêncio e o cansaço cresceram na mesma proporção, no caminho de volta.

Nosso objetivo, ao contrário do da maioria das pessoas, era encontrar principalmente um escritor, o barcelonês Enrique Vila-Matas. As pessoas talvez procurassem a festa, mesmo, o encontro entre vários e diferentes e anônimos leitores com os autores famosos ou a caminho de se tornarem, uma prova de que os livros não precisavam se sentir ameaçados, havia quem os admirasse no Brasil, esse país que normalmente é associado com índices infames de leitores.

Durante cinco dias, a festa ajudava a desmentir que o Brasil era dos que mais contribuía para matar os livros, porque tinha excesso de gente circulando entre velhos paralelepípedos e construções coloniais e interessada em ler e ouvir os escritores, às vezes conseguir fazer uma pergunta, por escrito. Os jornais faziam alarme à toa, era o que parecia a quem olhasse a quantidade de gente que havia ido rezar no altar literário. Mas se alguém pusesse reparo na nossa fuga de carro no domingo, antes mesmo do fim da festa, pensaria que havíamos sido nós a matar a literatura e queríamos nos afastar o mais rápido possível do cadáver para termos um álibi, quando mais tarde fôssemos interrogados.

Nossa esperança era que o delegado responsável pela investigação não teria, muito certamente, grande interesse em elucidar o verdadeiro autor do crime, o que nos deixaria tranquilos, depois do interrogatório. Mas, de novo, estou teatralizando uma situação que não iria ocorrer, porque não havíamos assassinado a literatura. Não era nossa a culpa nem era por isso que Aguinaldo acelerava tanto.

 

 

II

 

A viagem para a cidade de praia dias antes começou num clima de emoções estranhas. Nosso pequeno quarteto admirava o espanhol Vila-Matas e ele era um convidado de honra, que viria terçar armas literárias com o chileno Alejandro Zambra. Nas vésperas da viagem, soubemos que não só haveria a mesa intitulada Apenas literatura, entre Vila-Matas e Zambra, na quinta-feira, mas o espanhol também iria pronunciar uma conferência no sábado, Música para malogrados, no lugar do ganhador do Nobel J.M.G. Le Clézio, que cancelou a vinda de última hora, supostamente por questões de saúde. Ou seja, levaríamos dose dupla de Vila-Matas, pelo preço de uma mesma viagem.

Se déssemos sorte, encontraríamos Vila-Matas entre os pedregulhos da cidade, a admirar uma construção colonial ou a pedir cachaça (escritores não bebem pinga, mas cachaça, isso foi algo que notei) num restaurante que lhe serviria um prato de frutos do mar do qual ele não guardaria lembranças.

A viagem, eu disse, começou entre fortes emoções. No carro, contamos uns para os outros casos, lembramos velhas histórias, formulamos algumas novas. O quarteto era composto de Aguinaldo Souza, o piloto, dono do barco terrestre que nos levou; sua esposa Cleonice, um sorriso maior do que a boca e uma boca que falava muito; Cláudia, que havia sido minha chefe num passado remoto, antes de se converter numa boa amiga; e eu, Aldo, a encarnação viva de todos os personagens fadados a fracassar na literatura de Vila-Matas. Caso ele se desse o trabalho de me conhecer, concluiria que poderia muito bem ter feito um acompanhamento da minha vida e depois colocado no papel, sem qualquer adição de literatura, para ter numa só pessoa toda a galeria de supostos fracassados que frequentam suas páginas. Teria lhe economizado esforço, suponho.

O pretexto para a vinda de Vila-Matas, além da conferência e do debate com Zambra, era divulgar o novo romance que tinha acabado de ser traduzido, Ar de Dylan. O personagem do livro é Vilnius Lancastre, um fracassado de carteirinha, sócio fundador do clube, talvez. Talvez, digo, se eu não tivesse chegado antes para ocupar o cargo. No livro, ele faz uma longa conferência, evidente que fracassada, ou quase isso, a respeito de sua vontade de não agir. “Poucas coisas parecem tão intimamente ligadas como o fracasso e a literatura”, Vila-Matas escreve e quando li isso não pude deixar de pensar que ele andou chafurdando o meu diário.

 

 

III

 

Mal sabia eu que Vila-Matas tinha a intenção de fracassar na festa literária. O plano dele era muito bom e estava dividido em duas partes, ou dois atos. Faria sucesso no debate com Alejandro Zambra, na tarde de quinta-feira, despertando na plateia interesse por ele, pelos textos que escreve, pelas provocações que é capaz de fazer. Em seguida, distribuiria autógrafos como um escritor tradicionalmente faz, mas sem distribuir também sorrisos, porque Vila-Matas tem em torno de si uma aura de gravidade, uma capa que nunca esquece no quarto quando vai sair de casa ou do quarto de hotel quando está em viagem, faça chuva, faça sol.

A segunda parte aconteceria no sábado. Ao subir ao palco no lugar de Le Clézio, tentaria repetir o que havia escrito nas páginas do Ar de Dylan, fingindo ser um personagem saído do seu livro para ganhar vida. Os jornais não viviam dizendo que ele confundia realidade e ficção na literatura? Faria isso também na vida real, invertendo de forma temerária o princípio, deixando a ficção ganhar corpo. Incorporaria Vilnius, falaria em seu nome, como se fosse ele mesmo falando.

Confesso que, se Vila-Matas transformado em Vilnius tivesse se consultado comigo, eu teria dito que achava o plano arriscado. A conferência deveria provocar mal-estar e fazer com que algumas pessoas deixassem a grande estrutura de lona onde ocorrem os encontros com os escritores, ao lado de um rio que desemboca no oceano Atlântico logo em seguida.

Ele faria um começo provocador, seguido de um trecho com uma extensão de fala que as pessoas não estão habituadas a aguentar, não as pessoas que vivem no século vinte e um, cercadas de computadores, televisão, celulares e um ar de que precisam correr muito antes que a vida acabe na próxima curva. Vila-Matas estava disposto a colocar sua carreira literária em risco para sustentar que o fracasso merece chance de ser bem sucedido. As pessoas parecem só se preocupar com o sucesso.

 

 

IV

 

Enquanto esperávamos na fila para poder entrar na tenda de lona para a conferência, eu conversava com Cláudia. Todos os escritores até então tiveram que responder à pergunta a respeito do que havia de autobiográfico no que escreviam. A única resposta para essa pergunta, Cláudia me disse, era confirmar que tudo é autobiográfico sempre e, em seguida, acrescentar que todo escritor, por dever de ofício, tem autorização para mentir. Mas a palavra correta, ela acrescentou, é ficção, não mentira. Em seguida, olhou para cima, um pouco entediada por ter que aguardar de pé, na fila, e falou uma frase a respeito de outro assunto: É a literatura que me permite suportar o mundo, ela disse. A frase ficaria muito boa numa camiseta, revidei, vou mandar fazer quando a gente chegar em Brasília. Ela riu e acrescentou que usaria outra, na qual estaria escrito: a frase ao lado é de minha autoria.

Pensei em Vila-Matas, ladrão de diários. Quando o escritor é famoso e reconhecido, ninguém lhe cobra isso. Pode plagiar à vontade. Shakespeare é gênio, disseram os especialistas convidados para outra mesa do mesmo evento, e boa parte, senão a totalidade do público, assentiu. A palavra mágica nesse caso é transformação, transmutação. Ele pegou o enredo de outra pessoa, algo que todo mundo fazia naquela época, e transformou em algo muito específico. Viva Shakespeare. Mas se um certo Aldo Machado se apropria da frase da amiga e coloca numa camiseta, processo nele. Com a minha sorte, eu iria perder a causa antes mesmo de começar. Desisti da camiseta, com medo.

Não vou me deter no relato de como foi o encontro de Vila-Matas com Zambra, na quinta-feira. Resumido numa palavra: sucesso.

No exemplar de Ar de Dylan de Aguinaldo, que teve coragem de enfrentar a fila quilométrica de autógrafos, Vila-Matas escreveu na dedicatória: “Com um abraço de Montano”, e assinou, “Vila-Matas”. Montano é personagem de outro romance, O mal de Montano, a respeito da vontade de desaparecer, algo que a pessoas como Vila-Matas parece impossível, mas que para mim é o mesmo que falar a respeito de buracos negros, alguma coisa que sei que está lá no céu, embora eu nunca tenha visto. Sempre fui um desaparecido desde que me entendo por gente. Nunca apareci em coisa alguma, em qualquer parte. As pessoas olham para mim e é como se não me vissem. Outro dia liguei para uma de minhas três ex-mulheres e ela demorou a se lembrar quem era eu. Não sei, numa queda-de-braço com Vila-Matas a respeito do que dói mais, ser um desaparecido ou querer desaparecer, tenho a impressão de que levaria vantagem.

 

 

V

 

O escritor apareceu sobre o palco e caminhou até o centro. As três cadeiras que normalmente ficavam por ali durante os outros encontros da festa literária haviam sido retiradas e uma mesa antiga, de madeira, propositalmente simples no traçado e confecção, estava no centro, um pouco para a frente. A cadeira que lhe servia de par, no entanto, era dessas novas, modernas, e um assistente de palco entrou para ajustar a altura. Em seguida ao texto protocolar de apresentação do festival, apareceu o curador de língua presa para apresentar Vila-Matas, que entrou na sequência para receber os aplausos de boas vindas. Ele é um senhor de testa alta que está perdendo a briga com a circunferência da barriga e um pouco dos cabelos do alto da cabeça, é dono de uns olhos agudos e, às vezes, travessos, num corpo que envelhece bem e aparenta estar conservado. De vez em quando, range os dentes, um sintoma de certo nervosismo, mas a bochecha mal deixa perceber a tensão do músculo. A voz é grave, resultado do contato duradouro com a capa de seriedade.

Ele usava terno azul escuro com um detalhe vermelho no bolso, talvez um lenço dobrado com especial zelo por Paula de Parma, a esposa a quem ele dedica praticamente todos os livros. Se alguém se aventurar a retirar a ficção de lado para tentar atingir a vida e escrever a biografia de Montano, isto é, de Vila-Matas, terá que falar dessa sucessão consistente de dedicatórias e de um caso estranho de relação bem sucedida e longeva entre um escritor que fala tanto a respeito de fracasso e outro ser humano, ainda por cima esposa. Por um instante pensei na minha quarta esposa, Aramina, que teve tranquilidade o bastante para me deixar vir a esta festa com os amigos, sem que viesse junto ou fizesse um escarcéu por ciúmes que ela efetivamente não sente. Já disse, sou inócuo. Não sei se ela estará em casa, pensei, ou se terá feito como Dora e deixado um bilhete sobre a mesa, comunicando que o advogado dela entrará em contato com o meu, portanto que eu trate de arranjar um.

 

 

VI

 

Vila-Matas limpou a voz num pigarro e em seguida leu: “Me chamo Antonio Tabucchi, como todo mundo”. Tabucchi, como se sabe, foi um escritor italiano que, por gostar muito de Fernando Pessoa, aprendeu português e segundo alguns relatos não confirmados, escreveu alguns livros nesta língua estranha. Mas é fato que sua viúva se chama Maria José de Lancastre, o mesmo sobrenome do personagem de Vila-Matas, Vilnius Lancastre.

Enquanto lia o texto de Música para malogrados, Vila-Matas percebeu duas coisas com um misto de extrema satisfação e profundo desgosto: algumas pessoas estavam saindo, tal como ele havia previsto, mas havia um núcleo que não arredava pé da tenda, eu entre eles. Ao fim da leitura, não teve remédio senão agradecer os aplausos dos renitentes. Sua ideia de fracassar completamente havia fracassado, o que tornava a conferência um sucesso, afinal.

Ele fez dois gestos, como bom ambíguo: lançou um beijo aos sobreviventes e baixou a cabeça logo em seguida, enquanto saía com passos fingidamente comedidos de falso tímido pela lateral do palco.

 

 

 

VII

 

Em O mal de Montano, Vila-Matas escreve: “Talvez a literatura seja isto: inventar outra vida que bem poderia ser a nossa, inventar um duplo”. Não sei porque me lembrei dessa frase ao cruzar na ponte com Vila-Matas, que caminhava com Paula de Parma e sua capa de seriedade, que como disse lhe acompanha por toda parte. Imaginei que poderia olhar no olho de Vila-Matas por dois segundos, no meio exato da ponte, e por algum efeito de filme hollywoodiano trocaríamos de lugar.

Eu iria viver sua vida de famoso descontente com a fama e ansioso por desaparecer, ele iria viver a minha de eterno desaparecido e insatisfeito precário. Se em algum momento destrocássemos, duvido que voltaria a escrever a respeito de fracasso, desaparecimento, essas bobagens.

Claro que isso não aconteceu, na vida real não existe troca de corpos. E esse aqui, ao contrário dos livros mentirosos e cheios de plágio do senhor Vila-Matas, é um relato do que efetivamente houve: nada. Cruzamos na ponte e ele sequer me olhou. Resguardado pela capa e eu por minha invisibilidade corriqueira, seguimos nossos caminhos em direções opostas.

Ele foi dali para uma grande livraria de São Paulo e depois para a Europa ou sei lá que outro destino sul-americano que porventura tivesse. Eu saí correndo para convencer meus amigos que precisávamos voltar para casa o mais rápido possível, com o que eles se viram obrigados a concordar, até porque não aguentavam mais os escritores explicarem que nem tudo é autobiografia no que escrevem. Mas parece que ninguém os escuta.

Não sou o duplo de Vila-Matas, não estou condenado à fama, como ele está, e confesso que não lamento seu destino mais do que lamento o meu, de invisível, mas cada um que resolva seus problemas como puder, afinal é essa a lógica terrível do mundo.

Se me perguntarem algum dia o quanto de autobiográfico existe nesse relato, direi que tudo. Mas vou acrescentar que Vila-Matas não existe, é completamente inventado. Com a vantagem de ter um sósia, ou duplo, que lhe escreve os livros e fatura muito dinheiro com ficção. Uma pena que não sou eu, cujo verdadeiro talento é mesmo para fracassar. Acho que ele deveria reclamar menos.

 

2 comentários sobre “o sucesso do fracasso

  1. mauro belmiro 11/07/2012 / 13:38

    … sucesso, fracasso: duas palavras de três sílabas, cada uma com dois esses.

    pode-se dizer que rimam!

    p.s.: saúdo o uso triunfal das letras grandes!!!…

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    • paulopaniago 11/07/2012 / 14:32

      sim, com certeza há certa rima nelas, você está certo. mas como pode ver, as letras grandes só valem como exceção neste único caso…
      grato pelo comentário. abraço.

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