partícula

 

 

vi a expressão num livro que estava lendo, enquanto tomava um café. partícula de morte, dizia, no fundo dos olhos de uma personagem. penso: a vida é essa recusa permanente de morte. estar vivo, respirar, viver, enquanto a morte não vem. é tudo o que é possível fazer. é o que todos fazem, conscientemente ou não. enquanto vivem, recusam a morte. quando mortos, não podem recusar mais nada. a recusa é atributo dos vivos.

a morte é difícil, cruel e implacável, mas por enquanto não, é a vida o que conta. e no entanto, para essa personagem da literatura e para algumas pessoas que conheço existe isso que marguerite duras chamou de partícula da morte, e localizou no fundo dos olhos. namoro com o abismo, a sedução provocada pelo sussurro das trevas. é o que dizem uns.

outros, no entanto, preferem: a vida é tão intensa, vamos nos concentrar nela. como? fingimos que a morte não existe, rebatem os donos de partículas.

não é isso, ela existe, vai chegar para todos, ninguém nega. mas exatamente por causa disso, por ser inevitável, que devemos aproveitar agora, enquanto estamos vivos.

não dá, dizem os portadores, donos, não dá para esquecer, a gente não consegue.

a partícula lá, cintilante.

 

4 comentários sobre “partícula

  1. stephanie 05/08/2012 / 17:10

    admiráveis palavras, paulo p. mas, em minha opinião e percepção, não acho a morte algo ruim ou triste. “O lastimável fim.” a morte é um processo natural. a gente nasceu para morrer. como diz a frase: — viver é sonhar, morrer é acordar. a vida é algo emprestado. e se eu tiver que morrer, que seja! como diz peter pan: — morrer será uma enorme aventura. ou pior, como albert schweitzer: — a tragédia do homem é o que morre dentro dele enquanto ele ainda está vivo. e albert einstein, para finalizar: — a coisa mais bonita que podemos experimentar é o misterioso.

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    • paulopaniago 05/08/2012 / 19:39

      obrigado pelo comentário, stephanie. mas não acho nada de natural em morrer, embora saiba que é inevitável. não acho que a gente (pelo menos falo por mim) tenha nascido para morrer. nasci para viver, até não viver mais. ou seja, pretendo viver muito, até para evitar o que o schweitzer adverte, ou seja, morrer enquanto vivo. espero só estar morto quando estiver morto, mesmo, se é que você me entende. abraço.

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  2. stephanie 07/08/2012 / 1:28

    gosto da tua lógica. e fico empolgada até falando de morte contigo, incrível. (sim, isso é amor, rs.) claro que entendo e respeito tua visão a respeito. e só para deixar claro, também não quero morrer tão cedo (e “tão cedo” não me refiro a tempo, me refiro à intensidade). ainda não atingi o ápice. quero viver até a última gota de vida. mesmo considerando a morte um processo natural. até porque quem foi nunca mais voltou, então o lugar deve ser bom, haha! (piadinha sem graça ‘-‘ eu sei).
    mas enfim, foi bom compartilhar visões. é sempre um prazer. 1beijo

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    • paulopaniago 07/08/2012 / 8:53

      acho que no fundo pensamos de maneira bem parecida a respeito desse assunto, stephanie. beijo.

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