quando desmorona

escultura | luke jerram

 

 

a desintegração mental fazia com que ela associasse palavras a outras palavras, mas sem nexo entre elas, trechos de canções, versos de poemas que havia memorizado, uma colcha de retalhos do pensamento, um fluxo que em vez de correr dentro de um conjunto — como a água de um rio em direção ao mar — se espalhava em raio para todas as direções.

e em nenhuma. aquele mundo em pedaços estava desligado deste, racional, e seus poucos pontos de contato — sintaxe das frases, pequenas lembranças do passado, embora fora de ordem — só aguçavam a melancolia de tudo aquilo. pensei em tantas rainhas loucas na história (resultado de excesso de mistura do mesmo sangue), mas ela não era rainha, apenas uma mulher sem conexão com o mundo, dependente da boa vontade dos filhos.

 

6 comentários sobre “quando desmorona

  1. vanessaaquino 22/08/2012 / 11:36

    seu texto me deixou intrigada comigo mesma haha: será que estou desmoronando? a sensação é quase essa.

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  2. tfc 22/08/2012 / 12:54

    entendo exatamente a sensação da vanessa, mas o curioso é que eu senti exatamente o oposto ao ler esse texto. tão simples e tão triste, me fez perceber que muitas vezes, quase sempre, as pessoas são mais sólidas que realmente percebem. a analogia da memória como uma colcha de retalhos de pensamentos é muito inteligente. a loucura não é ter um trapo como armazém cognitivo, é não se dar conta de que ele precisa de reparos, é não conseguir separar o que é ainda é pano do que já virou pó. a sanidade talvez seja possuir mãos disponíveis para fazer essa costura, mesmo que sem muita habilidade. esforço e repetição seriam esses presentes da vida que muitas vezes são ignorados… enquanto for possível reclamar deles, significa que está tudo bem, na verdade. que curioso.

    que alguns teóricos da literatura não me escutem, mas certos textos da seleção “dois parágrafos” estão me forçando a começar a pensar a realidade de maneira diferente…

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    • paulopaniago 22/08/2012 / 14:25

      puxa, thaís, que análise favorável e elogiosa, fico até sem jeito, mas muito obrigado pelas considerações e fico feliz de estar, haha, provocando considerações teóricas na literatura…

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  3. thaís figueiredo 21/10/2013 / 2:31

    vou usar esse trecho para advogar a favor daquilo que, na minha opinião, deve ser a sua prioridade literária. sério, isso é tão simples e, ao mesmo tempo, tão perturbador! é inquietante e genial! se esse trecho não despertar no leitor a vontade de correr atrás do romance no qual ele estivesse contido, eu não sei mais o que despertaria. como não ficar curioso para saber de onde essa história veio, para onde vai?…

    dianteira da fila. mas, assim, sem pensar meia vez.

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    • paulopaniago 21/10/2013 / 15:11

      tá bom, tá bom. haha. você é muito competente também na maneira elogiosa com que insiste no assunto importante…

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