alvo de ideias

 

 

não é sempre que se pode ouvir o poeta. avesso quase sempre à vida pública, por escolha ou esquecimento, é contrário a microfones e declarações suntuosas. mesmo suave, pode esconder estilhaços, entanto.

ouvir chico alvim é privilégio raro. ele fala pouco, tremem as mãos, o calor do lugar pode não ter ajudado (o centro de desenvolvimento de turismo, na universidade de brasília, hoje à tarde).

os jovens presentes, possivelmente alunos de letras, conversam baixo com os vizinhos, checam intenet no celular, distraem-se.

ele fala a respeito do ritmo dos versos, não apenas sonoros, mas psicológicos e espaciais. no meio da fala lança explosões que não se escutam logo, como “nada explica coisa alguma”. talvez fale das gerações em abismo, será?

também provoca:  “a poesia está além da palavra”. ela quer alcançar a eternidade, sem exatamente poder.

“há um desenho próprio de cada um na retina do outro”, dispara. chico alvim é um terrorista tranquilo e levemente trêmulo da palavra, a qualquer momento espero que vá se engasgar, mas prossegue, límpido de ideias, embora a voz vacile.

“tudo começa no sentimento, ele é anterior à palavra. ” os jovens continuam dispersos, não se despertam. outros, atentos, entendem. haverá esperança?

chico alvim saca a arma e atira (em si? contra si?) com gentileza brutal: “tenho horror do futuro”.

 

um poema dele, intitulado acontecimento, do livro o metro nenhum:

 

quando estou distraído no semáforo

e me pedem esmola

me acontece agradecer

 

2 comentários sobre “alvo de ideias

  1. tfc 05/09/2012 / 21:09

    o chico alvim foi, com certeza, um dos pontos altos dos últimos eventos do instituto de letras dos quais eu participei. fui atrás das minhas anotações feitas no seminário sobre victor hugo para compartilhar com você. ele disse que o autor estava muito próximo dos interesses da burguesia e que esses interesses embargaram a verdadeira revolução. certamente algo bem corajoso para se dizer no meio de um bando de franceses argumentativos, hehe. ele também falou sobre baudelaire, valéry e delacroix. afirmou-se devoto de castro alves. mas se eu tivesse que escolher o momento principal da fala dele seria a consideração sobre o panorama político e uma outra isolada: “paciência bate contra tudo e contra todos”. essa eu achei incrível.

    do evento do cet, eu elegeria os seguintes momentos: “a poesia povoa enquanto faz o inverso”, “a prosa é mais marcante que a poesia nos momentos de chumbo”, “o horror mais profundo é o da perda de sentimentos”. meu predileto, porém, foi “os sentimentos antecedem as palavras”. lindo.

    e o texto ficou muito bom!

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    • paulopaniago 05/09/2012 / 23:10

      puxa, obrigado pelo aporte extra. realmente, lastimo ter perdido a participação dele a falar a respeito de victor hugo. de toda forma, acho que foi importante. será que se consegue a íntegra pela tvunb? acho que vou tentar isso. e obrigado pelo elogio.

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