impostores

 

 

o sujeito se chamava marcos marcone. começou a publicar entrevistas em revistas literárias que eram feitas com ele por um certo mateus prado. marcos marcone conduzia a entrevista, escrevia as perguntas de mateus prado e as respostas que gostaria de fornecer para cada uma daquelas entrevistas. as revistas aceitavam as entrevistas, publicadas como “não-ficção”, ou com o que os jornalistas chamam de retranca, uma indicação temática, “entrevista”. no rodapé do texto, mateus prado era apresentado como aluno de mestrado de uma universidade de prestígio, na qual editava uma revista literária acadêmica.

acontece que sou mateus prado. quando alguém me disse o que estava acontecendo, que eu andava publicando entrevistas com marcos marcone em revistas literárias, fui até a casa dele confrontá-lo. escolhi seu nome, marcone me disse, porque vi você falando um dia na aula do professor onofre penteado e me pareceu que seria o entrevistador perfeito. mas você não me pediu autorização, rebati. mesmo sendo fã dos romances de marcone, escritos com ímpeto e veemência que há muito parecia não existir na fina literatura brasileira, aquela impostura me parecia abusiva. bem, eu disse, então agora você pode me dar sua primeira entrevista de verdade. ele aceitou a oferta e conversamos longamente, comigo gravando, enquanto ele procurou me acalmar com doses do seu melhor uísque. mas quando sentei sozinho, em casa, com preguiça de transcrever fitas e ainda sentindo o gosto estranho de ter sido homenageado e ao mesmo tempo vilipendiado, comecei a escrever outras perguntas e outras respostas. é o que será publicado na próxima revista literária.

 

2 comentários sobre “impostores

  1. carol 22/09/2012 / 13:01

    fera. quero saber, neste mundo, quem não comete impostura? diz nosso gregório casa: todos mentem. não? ou ernesto, o sábato: encontre as verdades sanitárias na ficção. e para concluir: na linha dos queridos argentinos, seu ótimo texto lembra os passos no rastro, conto em octaedro, dele, quase sempre ele (meu coração literário tem muitas gavetas), cortázar. sobre quando o professor universitário jorge fraga escreve a biografia do poeta claudio romero. ou a própria biografia? confusão geral! “sua irônica, quase desencantada aceitação progressiva daquelas etapas, não passava de uma das muitas máscaras da infâmia”, do autor.

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    • paulopaniago 22/09/2012 / 14:32

      só falo a verdade, mentiu o mentiroso. e de que serve a verdade senão para escancarar minha incompetência humana diante dela? a ficção, me parece, é quem mais se aproxima, mas com cautela, com receio de ser escorraçada. e se aproxima sempre, cada vez mais segura, mais convicta… hora virá, penso… mas é melhor mudar de assunto.

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