obra póstuma

foto | kyle thompson

 

 

havia um escritor, chileno e desconhecido, fito escárcega, que um dia, supõe-se que por volta de 1910, desapareceu do vilarejo onde morava, talca, abandonando mulher e filhos e um fim de vida tempestuoso entre bebidas e confusões, para se dedicar a escrever. previram que o final da vida não seria feliz, mas ouso dizer que abandonar tudo para poder escrever também não é a opção infeliz.

havia um escritor, brasiliense e por enquanto ainda desconhecido, que começou a estudar a obra de escárcega, sobretudo aquela produzida depois do sumiço. apresentou ao mundo os contos, romances, poesias de escárcega e com tal riqueza de comentários que a obra foi crescendo em interesse, primeiro pelos leitores especializados, depois por leigos. em algum ponto, peças de teatro prestavam homenagens ao escritor e uma onda de publicações em torno da obra se fez sentir. quando se soube que a obra descoberta de escárcega pertencia na verdade ao jovem escritor, não parecia mais que aquilo tivesse importância. todos queriam continuar a ler, discutir, compreender fito escárcega, mesmo que ele fosse um jovem escritor brasileiro.

 

para paulo renato souza cunha, autor de fito escárcega 

 

6 comentários sobre “obra póstuma

  1. pr 24/09/2012 / 13:45

    (…)

    depois de dois dias gloriosos de ócio, eliminar a solidão, abandonar tudo para poder escrever, pra quê?, por quê?, por nada, torturas incomuns, é o destino dos escritores bêbados, e o que fazer com um escritor bêbado?, fugir de talca, já seria um progresso, fugir do espetáculo desagradável, o mundo que dá medo, o mundo que deprime, coisa que não parece correta, citar sabato, que a literatura é um dom que repara a alma dos fracassos e desgostos, ela nos anima a cumprir a utopia a que somos destinados, ou pessoas estranhas, sentir a maior tristeza, esquecer muito, ser indiferente, longe, fitar o nada, as memórias perdidas, essa eterna saudade, a vida é um absurdo, é sartre — eis uma provação misteriosa, um pequeno preço a pagar, um doloroso e desavergonhado choro de jovem que ficou velho cedo demais.

    pr

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    • paulopaniago 25/09/2012 / 17:33

      você vê, parece que a história prossegue, incessante, incômoda, flutuante.

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  2. las artes 25/09/2012 / 23:19

    sinopse: em um jantar na casa de um jovem escritor, seu editor lhe contará a história de um escritor que quase o levou à loucura com a história de seres que habitavam sua máquina de escrever.

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