traste

arte | michael carson

 

 

nada o impediria de continuar avançando pela vida adentro, afora, abaixo e acima. quem o via passar tinha a impressão de acompanhar um navio que chega ao porto, lento, porém impetuoso e que, se o cálculo estivesse errado, não conseguiria parar por nada. gestos portanto muito bem pensados com antecedência para que erros não fossem cometidos. uma vida exemplar, costumavam dizer, vendo-o de ternos bem cortados e postura de cavalheiro, fosse para tomar café, fosse para retirar do bolso uma esmola para alguém.

a surpresa geral se deu quando ele anunciou, diante de todos na praça pública da pequena cidade provinciana, que a partir daquele momento tinha se transformado em artista da corda bamba. deixou de lado a vida medida e pensada com antecedência para abraçar o improviso e a incerteza. não adiantou a mulher chorar ou fazer ameaças de interná-lo como louco, os amigos advertirem, o padre, o prefeito, instâncias que foram feitas, nada resolveu. a sociedade, minúscula em mais de um aspecto, ficou escandalizada. ninguém se importou com a opinião dele a respeito daquela mudança. a partir daquele momento, no entanto, a verdade é que parecia ter encontrado uma espécie de felicidade muito peculiar.

 

2 comentários sobre “traste

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