à procura da voz

colagem | lekan jeyifous

 

 

a última vez que vimos percival ele ainda era ventríloquo, óbvio que não fazia mais sucesso, e continuava à procura de saber quem realmente era, a personalidade dividida entre três bonecos que o acompanhavam no show. comparecíamos, nós três, os amigos, mais para dar força do que por nos agradar o espetáculo deprimente de vê-lo suando e contando velhas piadas de ventríloquos, desses que fazem o boneco ser desalmado com o próprio dono e ter a língua mais ferina.

então percival desapareceu por uns tempos. quando o revimos, era outro inteiramente, ou quase. havia encontrado uma mulher, ana, a anã, que lhe tinha insuflado ideias, sugerido novo emprego, administrado a confusão e sobretudo posto fora aqueles velhos bonecos arcaicos. passado o primeiro susto (percival era muito magro e alto, não tinha como não estranhar vê-lo ao lado de qualquer mulher, ainda mais de uma anã), compreendemos que a relação o havia mudado e ele estava bem. percival estivera à procura durante toda a vida — e parecia ter encontrado — alguém que lhe transformasse em boneco de ventríloquo. ana, por sua vez, cansada de ser vista sempre em situação de inferioridade, resolveu também virar as cartas do jogo do destino. até onde sabemos, continuavam felizes. para sempre não digo, porque ainda estão vivos e nunca se sabe as curvas que a vida fornece.

 

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