perto, longe

foto | lieve van den bosch
foto | lieve van den bosch

 

 

o brilho do sol estava despejando calor nos ombros, rosto, braços. era aquilo a pequena felicidade?, a nadadora pensou, pisando na areia morna, depois de deixar o chinelo estacionado próximo à toalha.

seus olhos contemplaram as formas da areia, rochas, espumas das ondas. sabia que ao entrar no mar e dar início ao nado veria apenas água, alguma nesga de céu quando virasse o rosto para respirar. contraste entre muito perto e muito longe. muito longe, o marido morto sobre a cama do hotel, depois da noite de bebedeira. muito perto, o ponto final no casamento, a boia que pretendia contornar, a felicidade definitiva que desejava sentir.

 

4 comentários sobre “perto, longe

  1. thaís figueiredo 04/12/2012 / 18:09

    o texto é enigmático, cheio de nuances de interpretação (exemplo: passei um tempinho imaginando a cena do marido morto e o que exatamente teria levado o homem a perder a vida). tive que ler umas três vezes para tentar escolher uma leitura entre as possíveis, pois o texto parece dizer bem mais do que realmente está escrito. é um exercício para o leitor. isso é bom.

    porém, eu detestei a expressão “chinelo estacionado”. sério. acho que ficou feio. pode até ser uma metáfora maior para outra coisa (fiz paralelo com “bater as botas” e “pendurar as chuteiras”), sei lá, mas acho que não funcionou…

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    • paulopaniago 04/12/2012 / 18:21

      o jorge luis borges dizia para os escritores não inventarem metáforas, porque as que existem são suficientes. pelo visto, você concorda com ele.
      mas vou manter o chinelo onde ele está, estacionado, para o seu desagrado e do borges, caso ele pudesse ver isso.
      talvez porque o feio nesse caso me interesse. não porque seja uma metáfora maior, mas porque é exatamente essa, a de um chinelo que se comporta como carro pelo modo como a dona o estacionou.
      é.
      e talvez você pudesse dizer 1. por que exatamente “detestou” e 2. por que acredita que não tenha funcionado…

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  2. Thaís Figueiredo 04/12/2012 / 18:48

    bom, o texto é seu e eu não esperava que o chinelo fosse para outro lugar mesmo, haha. ele tem mais é que ficar no lugar que o autor o colocou, certo?

    mas será mesmo? o que me incomodou foi o seguinte: numa primeira leitura, eu apenas achei a expressão bem feia e muito aquém da sua linguagem geralmente parcimoniosa e elegante. mas isso é questão de gosto e não quer dizer que a minha opinião inviabilize a qualidade do seu texto ou mesmo da expressão. numa segunda leitura, me incomodou justamente esse estacionamento diante do grande movimento que ela parece prestes a tomar. principalmente, porque estacionar passa uma ideia de algo temporário. é como se a qualquer momento ela estivesse prestes a pegar aquele chinelo, sair correndo e desmentir o resto do texto. o que até combinaria com a dualidade da narrativa, entendo, mas ainda assim me incomodou. o grande problema é que não dá para saber muitas coisas nem do “antes” nem do “depois” da personagem, então essa ideia de estacionamento, para mim, deveria ter sido ou melhor trabalhada, ou explicada melhor, até porque é o plano em destaque no texto.

    mas é apenas uma opinião. no final das contas talvez seja apenas uma vontade de saber mais, ou mesmo uma discordância estilística. acontece.

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    • paulopaniago 04/12/2012 / 20:31

      ela “desestaciona” a chinela, ou “desestacionará”, quando sair do mar em direção ao fim do casamento… pelo menos é como eu imagino que a história vá (e não precisa menção, porque o núcleo que me interessava já havia sido alcançado…). então, acho que é isso, ficamos assim, com essa discordância estilística que aconteceu. 😉

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