irritado, depois calmo

ilustração | jp kalonji
ilustração | jp kalonji

 

 

um cigarro no canto da boca, a fumaça naquela dancinha sem ritmo para cima até se dissolver, ele olhou para o lado. “eu pararia de fumar, se fosse você”, insistiu a mulher, judite. ela mal tinha entrado em sua vida e já se sentia no direito de ter juízos, dar conselhos, promover correções, explicar pormenores, emitir um sem-número de opiniões não solicitadas, vetar amizades ou sugerir novas. judite estava com os dias contados, não simplesmente naquele apartamento grande onde olavo morava (herança de família, que não lhe causava qualquer tipo de vergonha), mas dias contados para continuar respirando por conta própria. olavo não teria o trabalho desagradável de ter a conversa final com ela, explicar-lhe que o relacionamento não estava dando certo, iam seguir por caminhos independentes. havia contratado um assassino profissional para lhe minizar o desgaste da ruptura. ele achava a deselegância suprema ter que se submeter ao processo humano convencional de por fim aos relacionamentos com jantares decentes e choro no fim, permeado por explicações que não explicavam coisa alguma. tinha gastado sua cota daquilo, então resolveu partir para um novo tipo de projeto. o sujeito contratado fôra devida e regiamente pago para também se livrar do corpo em seguida, porque simplesmente colocar uma bala naquela cabecinha de vento (embora bonita, isso todo mundo era forçado a reconhecer) ia fazer a polícia bater em algum momento à porta de olavo com perguntas a respeito da natureza do recente convívio entre eles. acontece que olavo não estava com paciência para conversas com a truculência policial, além de não lhe agradar a falta de sutileza dos caras para resolver assassinatos. sem corpo, sem conversas, embora a ausência dela talvez gerasse de qualquer modo alguma visita, mas bem mais adiante, quando ele já teria voltado a se relacionar com um número grande de outras mulheres e dado o braço a torcer: não era possível matar todas elas só porque não queria mais namorá-las. “talvez faça mal também para você”, reconheceu olavo, admirando com certa nostalgia prévia as curvas laterais da moça, “admito, por causa do fumo passivo”. havia subtexto, mas não tinha tanta graça porque só ele entendia. olavo sorriu com certa malícia que judite não foi capaz de perceber e apagou o cigarro com força no cinzeiro, pensando que aquele gesto tão trivial era uma metáfora bastante razoável do que pretendia fazer com o futuro de judite, via contrato. “foi meu último cigarro, você não vai mais fumar de carona comigo”, acrescentou, gentil. não custava, nos momentos finais, deixar-lhe uma imagem otimista da vida.

 

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