pessoas normais

debaixo-d'água

 

 

aquele escritor fez uma proposta inusitada. em vez de ficar quieto em seu gabinete, inventando personagens e situações imaginárias, ele sugeriu a alguns amigos que se mudaria para as respectivas casas e passaria a acompanhar rotinas durante alguma temporada. acompanharia durante algum tempo as horas de convívio comum da família (café da manhã; almoço, se fosse o caso; jantar). no terceiro ou quarto dia, quando tivesse se ambientado o suficiente com a casa e feito exercícios de descrevê-la em minúcias, passaria a acompanhar os integrantes da família nas excursões fora de casa: ida ao trabalho, à padaria, ao supermercado, à drogaria ou à casa de algum amigo. história reais de pessoas reais, ele argumentou. mas por que não fazer isso com a própria vida e rotinas, perguntaram de volta. porque isso é o que eu escuto o tempo todo, que tudo o que escrevo é fortemente autobiográfico, ele respondeu. e não é?, insistiram os amigos. está vendo?, ele disse. mas não será, se eu conseguir entrar não apenas no dia a dia das vidas, mas também nas mentes, argumentou. então, o que vocês me dizem? mas os amigos declinaram, aquilo seria expor demais as próprias entranhas e todo mundo se sente invadido com as demasias. além disso, quando finalmente o escritor entrasse em suas cabeças e as compreendesse, ele iria se sentar para escrever a partir da própria cabeça (vocabulário, estilo, temas, frases padrão etc.), ou seja, ia acabar transformando aquilo em mais um capítulo da famigerada autobiografia, de qualquer jeito.

 

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