confissão

foto | wladimir loyola
foto | wladimir loyola

 

 

as pessoas conversam. é isso o que elas fazem. abrem a boca e se põem a tagarelar sobre qualquer coisa. para ocupar um suposto vazio, para demarcar um território simbólico, para manter os ritos das relações humanas. quando têm algo muito sério a dizer ou nada de relevante — esse excesso de fala torna o importante e o irrelevante praticamente a mesma coisa. as pessoas confessam para mim os segredos de alcova, não todos, não da mesma forma. mas ainda assim, isso me dá certo poder sobre suas vidas e temas para os sermões de domingo. há muito que não acredito em deus. não largo esse emprego, no entanto, porque primeiro ele me dá muito conforto material e depois porque estou viciado nessa audição especializada do catálogo de pecados que a minha paróquia é capaz de cometer. se não tivesse esse contrato de confidencialidade, eu poderia virar romancista, com tudo o que escuto. é essa, meu caro bispo, a minha confissão. as pessoas conversam.

 

2 comentários sobre “confissão

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