o amor não existe

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1. são várias línguas interconectadas que formam uma só, espalhada e diluída. os pontos de conexão foram encontrados por antropólogos que se interessavam por linguística. alguém percebeu a ponte, logo todo mundo estava publicando um artigo científico a respeito.

 

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2. em todas as línguas, havia uma mesma palavra para dizer “amor” e isso já seria indício bastante das proximidades entre elas. julia conseguia pronunciar a palavra em todos os sotaques diferentes nas variações adotadas em regiões distintas. mas ela não compreendia o amor, nunca o havia sentido. uma brisa soprada do mar moveu seus cabelos e lhe arrepiou a pele, mas julia sabia que aquilo não era o amor de que todos sempre falavam.

 

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3. as pessoas querem fazer crer que os vivos são os vencedores de uma corrida de espermatozoides em direção ao ovário, sem considerar o quanto de acaso houve nessa corrida inicial que determinou que você estaria aqui hoje à noite, em frente a essa plateia, para começar a fazer uma conferência a respeito das prerrogativas do acaso, o outro nome pelo qual as pessoas conhecem deus.

 

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4. o amor também é produto do acaso, disse o conferencista na frase provocativa de abertura. ele desenvolveu a ideia de que um conjunto de circunstâncias tem um peso muito grande e limitador nas escolhas que são feitas pelos seres humanos quando se trata de amor. na terceira fila do público universitário estava julia, antropóloga especializada em análise de comportamento e capaz de pronunciar a palavra amor em todas aquelas línguas interconectadas, com inclusive as variações sutis de sotaque de cada região, mas incapaz de sentir qualquer fragmento, fagulha ou incêndio de amor. existe o conceito, disso ela estava ciente. existem interesses mútuos, atração, o poder hipnótico dos feromônios, os dados do acaso (a que muitos dão o nome de deus), mas além disso ela não conseguia ir.

 

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5. ao fim da conferência, quando algumas pessoas se aproximaram do convidado para cumprimentá-lo e prosseguir um pouco na discussão de uma ideia ou outra, julia também se juntou ao grupo. além de observar os primeiros sinais de rugas em torno dos olhos do conferencista, principalmente quando ele os fechava ao sorrir e agradecer os elogios recebidos, julia reparou como ele estava vestido e o tamanho dos dedos da mão bem desenhada. ela se apresentou e quando disse o sobrenome e depois fez um comentário a respeito da conferência, não sabe dizer o que a agradou mais: ouvi-lo elogiar um livro que julia havia publicado ou as rugas em torno dos olhos que se formaram quando ele sorriu para ela. talvez fosse o formato, o desenho do sorriso que estimulava confiança. e o ligeiro perfume que lembrava a ela a brisa do mar.

 

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6. houve um jantar entre eles. para julia, estava claro do que se tratava: cortejo, parte do ritual de sedução que os humanos estabeleceram para se aproximar. devem conversar e ao longo do papo perceberão pontos de afinidade ou de curto-circuito entre si. dali vão para a casa dele ou dela ou, se as coisas não forem bem, cada um para a sua. as linhas recíprocas de trabalho foram o principal tópico da noite. julia percebeu que ele dava mais importância ao trabalho do que a vida pessoal. não parecia haver sentimentos verdadeiros naquele homem, embora ele fosse charmoso. a noite terminou na casa dele, porque julia achou que ele merecia o benefício da dúvida.

 

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7. ao despertar na cama daquele homem estranho com quem se permitiu um momento de intimidade, julia percebeu o erro, ou melhor, confirmou o que já sabia antes. havia cedido ao apelo em forma de grito dos hormônios, da necessidade física que o desenho da natureza lhe reservou. mas as poucas afinidades entre eles (além daquela intelectual relacionada a trabalho) jamais seriam transpostas para chegar a desenvolver um relacionamento saudável e longevo. conseguiu vestir a roupa e esgueirar-se para fora do apartamento antes que ele pudesse acordar. na rua, o alívio se sobrepôs à parcela mínima de culpa pelo comportamento indelicado.

 

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8. o amor é um produto cultural desenvolvido como ferramenta de sustentação de certos valores sociais, o amor é uma droga forte e viciante. o amor é uma empulhação atrelada a certos comportamentos. julia passou a defender que na verdade a palavra que todas as línguas usavam para a palavra amor queria na verdade dizer afeto, uma diferença que não era tão pequena como se supõe. um equívoco na tradução e um descuido dos linguistas, que os pesquisadores jamais se deram o trabalho de corrigir e se perpetuou o bastante para se consolidar. julia ficou conhecida como a grande demolidora, responsável por colocar em discussão anos e anos de uma linha de raciocínio que afinal se revelou frágil. o que as línguas sabem a respeito de afeto não é o que as pessoas sentem. o sentimento é individual, embora as línguas tenham cunhado uma expressão semelhante e coletiva para defini-lo. a língua não sabe o que é o amor. julia, infelizmente, também não.

 

2 comentários sobre “o amor não existe

  1. stephanie reichel 10/01/2013 / 17:16

    isso seria uma parte da cadeia alimentar do amor? rs. preciso dizer que adorei o uso dessas fotos entre os parágrafos, com uma perspectiva original, mostrando somente os horizontes, ainda mais em forma retangular. muito próximo de como vemos. parece que essas fotos foram feitas para o seu texto. e já estava com saudade daqui, bom pisar nesse chão.

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    • paulopaniago 10/01/2013 / 17:37

      muito boa essa sua definição, stephanie, parte da cadeia alimentar do amor. gostei muito. e fico feliz que você matou as saudades, mas, ei, tem todo dia uma publicação, por volta de dez da manhã, dez e pouquinho…

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