apelos

arte | marina rheingantz
arte | marina rheingantz

 

 

ele estava de sobretudo, tinha um guarda-chuva fechado na mão, que usava feito bengala. lançou um olhar displicente a) para o caixão b) para o relógio. depois apalpou o bolso da calça, onde estava o celular, o apelo da vida, o mundo conturbado dos negócios aflitos. aquela interrupção era, com a mais absoluta e certa garantia, aquela interrupção no rumo dos negócios era a própria definição do inferno. por que as pessoas — seu pai especialmente — não podiam morrer no fim de semana?

 

5 comentários sobre “apelos

  1. pr 21/01/2013 / 12:00

    meu pai morreu no dia 24 de julho de 2010, sábado. eu recebi a ligação da polícia. ele estava longe, em algum lugar no interior do rio grande do sul. um tipo aventureiro que gostava de fazer trilhas, apreciava o barro marrom nas rodas da picape. foi acidente de carro, mas o atestado de óbito diz: afogamento. ele desmaiou, a cabeça ficou embaixo d’água, ele não acordou. jamais acordou. o corpo viajou dentro de um avião da força aérea brasileira, transferência arranjada por um amigo da família, com parentes militares — na verdade, nunca entendi direito como se deu a coisa toda. o voo, embaixo de chuva, minha mãe segurando o caixão, pouca visibilidade, os filhos esperando em brasília. o velório aconteceu numa terça-feira, cinza, como todo velório parece ser. quase cinco mil pessoas beijaram a mão do meu falecido progenitor. era um médico muito conhecido, meu pai.

    (veja: papai morreu num fim de semana, e tudo foi um verdadeiro caos. eis a minha singela intervenção.)

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    • paulopaniago 21/01/2013 / 13:30

      paulo, sua relação com seu pai deve ter sido magnífica. sei que deve ter sido um caos lidar com a situação no fim de semana, nem tanto pela combinação de problemas de logística, mas pelo inesperado da notícia (é verdade, deveríamos todos estar preparados, mas o fato é que não estamos), pela perda que é tão marcante e pelo chão que ela geralmente abre diante dos pés.

      mas no caso do personagem da história, a morte é um transtorno aos negócios, de tão distante que ele se encontra, do ponto de vista dos afetos, em relação ao próprio pai. logo, tratará a morte do pai apenas como mais um transtorno na rotina de afazeres. a questão é fazer pensar o que leva alguns seres humanos a agirem dessa forma, com tanto desapego.

      p.s.: os últimos funerais a que compareci, reparei um crescente número de pessoas que falam ao celular, que não conseguem não se desvencilhar das obrigações corriqueiras para prestar uma última homenagem, não ao morto, que não liga mais para protocolos, mas aos vivos que o lamentam, a família.

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  2. mirian oliveira 21/01/2013 / 15:55

    paulo renato souza cunha e paulo paniago, agradeço por todos os universos que vocês dois abrem pra mim.

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