de uma vez

água-na-chuva

 

 

viva intensamente, dizia o cartaz, que exibia um sorriso cheio de dentes. agenor pensou que aquele conceito só poderia ser definido como sarcástico. qualquer outra aproximação não seria justa, quase disse, a mão direita coçando o queixo, o cotovelo apoiado na palma da mão esquerda, detendo-se sobre o assunto mais que o necessário. não sigo ordens, pensou em seguida, mesmo as que são comandos para o bem. ergueu os ombros como quem despacha o assunto junto com a mala e foi cuidar do embarque. tirou a passagem da lateral da bolsa e a apresentou para a moça da companhia aérea, simpática feito tarde chuvosa. mais tarde, na fila do corredor que dava acesso ao avião, pensou que talvez devesse reconsiderar a própria rebeldia estéril diante de mensagens simpáticas que procuravam melhorar, nem que de forma besta, a vida das pessoas. quando sobrevoava o atlântico e o avião começou a cair, soube que teria poucos segundos para seguir a ordem do cartaz. não se pode dizer com absoluta precisão — a caixa preta não grava pensamentos e mesmo que gravasse algo fora da cabine dos pilotos registraria apenas os gritos em volta, assustadoramente altos e desesperados —, mas o último pensamento que lhe ocorreu foi: então é assim que se morre. o cartaz de sua imaginação teria dizeres mais ousados: viva, foda e morra intensamente.

 

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