rastros e apagamentos

expresso

 

 

o homem estava sentado à mesa de um café situado na praça de uma grande cidade. a mesa ficava ao ar livre, diante de si a praça se estendia generosa e vários turistas passeavam, bem como alguns habitantes locais estavam de passagem, dois ou três que ele conhecia. tinha consigo a companhia de um livro e, nele, leu um trecho bem curto, mas que o encheu de caraminholas. dizia o trecho: “penso agora nos rastros que um homem deixa no pequeno espaço em que se move todo dia”. era um trecho entre parênteses e talvez tenha sido isso que lhe provocou o pensamento inverso — não os rastros que alguém deixa no pequeno espaço em que se move, mas os apagamentos constantes que se acumulam sobre esses rastros. nada sei, pensou o homem, tomando um gole de café, a respeito dos sujeitos que se sentaram ontem a esta mesma mesa onde me encontro agora. não é de lembranças e memória que o mundo se faz, mas sobretudo de apagamentos. ele pediu a conta, com a certeza de que em meia hora ninguém seria mais capaz de se lembrar que ele esteve naquele café.

 

deixe um comentário ou um desaforo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s