ciclo da vida, amém

ilustração | fred benaglia
ilustração | fred benaglia

 

 

comecei por uma perda. lançado ao mundo contra a minha vontade — a noção de vontade ou escolha não se aplica a um infante —, tive que lidar com ele, com a tensão permanente para o desequilíbrio que o mundo tem. minha angústia da perda se reveza periclitante com o aumento dos desejos e impulsos e a saciedade temporária de alguns deles. outros desejos e impulsos, no entanto, precisam e serão severamente suprimidos, reprimidos à exaustão (equivale dizer: fui educado). o longo aprendizado do equilíbrio em meio à confusão se faz de maneira dolorosa, mas se faz. é quando se aprende a amar a vida que é preciso aprender também a não mais amá-la, porque uma nova perda se anuncia e essa, sinto dizer, é definitiva. quando morrer meu consolo é que virarei deus, a eternidade do eu dissolvido.

 

6 comentários sobre “ciclo da vida, amém

  1. thaís figueiredo 07/02/2013 / 20:17

    “é quando se aprende a amar a vida que é preciso aprender também a não mais amá-la, porque uma nova perda se anuncia e essa, sinto dizer, é definitiva. quando morrer meu consolo é que virarei deus, a eternidade do eu dissolvido.”

    das melhores coisas que você escreveu nos últimos tempos, apenas. seu trecho é um trovão fantasiado de/travestido em tomada de parede. começou com uma confissão simples, mas condensou muita coisa essencial num espaço pequeno. e foi longe, muito longe. o narrador apenas ganhou com a consciência das perdas vindouras, parece-me que por causa dela, ele tem mais vitalidade. e ele soube expressar essa contradição de uma forma capaz de gerar empatia em muita gente. bom, pelo menos foi a forte sensação causada em mim. beijo!

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  2. mirian oliveira 07/02/2013 / 21:15

    adorei, paulo. e já que você vive me presenteando com suas escritas, deixo uma retribuição. um abraço super-ultra-mega-incrivelmente-empático.

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    • paulopaniago 07/02/2013 / 21:54

      obrigado, mirian. essa ária, além de ser uma das coisas mais bonitas já compostas, se não me engano é ela que está na abertura de um filme do tarkovski, chamado o sacrifício.

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  3. mirian oliveira 09/02/2013 / 17:07

    oba! não vi o filme mas, partindo de você, deve ser bom. será difícil encontrá-lo por aí?

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    • paulopaniago 09/02/2013 / 18:43

      pois é, esse o problema. tarkovski não é exatamente um cineasta acessível no brasil, infelizmente… agora, acho um grande filme. mesmo que tenha por fundo uma visão católica (tarkovski era católico, o que não deixa de ser rebelde, na época do auge da união soviética)…

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