lições de piano e literatura

foto | thorsten janowski
foto | thorsten janowski

 

 

o café se chamava amigos do ar e estávamos reunidos para apreciar o sabor apurado da amizade e dos cafés especiais do estabelecimento. nossa amizade era cimentada pela literatura e tínhamos nos juntado naquele fim de tarde para ouvir o conto de um sujeito que havia vendido o próprio piano para pagar as contas e, na falta da música, decidira-se lançar nos braços da literatura. aquilo nos irritava — a presunção de que literatura é mais fácil porque só requer lápis e papel, enquanto um piano, bem… —, mas não podíamos estar mais enganados. o sujeito tinha talento com as palavras e as moldava com uma sonoridade toda própria que um de nós acertou em chamar de estilo. alguém riu e lembrou o caso fronteiriço de felisberto hernández, o uruguaio que também largou o piano, vendeu-o num momento de penúria e se transformou num escritor de primeira linha. a história insiste em voltar a certos temas, como fazem os escritores (e, bem, sobre a música nem preciso dizer: ela é toda calcada em repetições). bebemos e erguemos nossos copos de uísque — depois de certas horas, quando nosso grupo se reduzia e as portas eram fechadas para a clientela exterior, o amigos do ar liberava a circulação de outros líquidos que não café e mais de uma vez tentamos mudar o nome para amigos do mar. no dia seguinte soubemos que o pianista escritor tinha morrido — não deveria sob qualquer circunstância ingerir álcool, tinha uma doença raríssima que o impedia de chegar perto de qualquer bebida com teor alcóolico, mínimo que fosse. alguém tinha lhe servido um café irlandês, ou seja, café misturado com uísque, e por um momento imaginamos que havia sido assassinado, mas o garçom, manuel, garantiu que o pedido tinha sido do próprio autor. então foi suicídio, concluímos, sem entender porque alguém que é apresentado à alegria de nossa turma ainda cogita de se suicidar — e um de nós teve a presença de dizer: por isso mesmo. erguemos outro brinde a ele nos próximos encontros, mas por via das dúvidas sempre pedimos um exame físico detalhado antes de aceitar qualquer novo membro — e também não permitimos mais pianistas em crise, financeira ou existencial, mesmo eu tendo sido contra e dito que isso era besteira, mas fui voto vencido.

 

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