pessoal

farol

 

 

ele estava tomando um café e fazendo anotações num bloquinho de capa preta. o café ficava no aeroporto e pelas janelas ao fundo da área onde ficavam os restaurantes e lanchonetes algumas caudas de aviões em movimento pelo pátio lhe chamavam a atenção pelo canto do olho. às vezes, mordia a tampa da caneta e olhava a agitação em torno, enquanto a mente vasculhava os arquivos à procura da palavra mais adequada. às vezes, bebericava um gole de café do copo de papel que lhe deram. a mulher ia embarcar daí a pouco para uma longa viagem. ele sentiu uma pontada na altura do coração, mas não achou que fosse sentimento: a dor era física, uma espécie de compressão de alguma válvula. será que estou à beira de um enfarte?, lhe ocorreu. ele sorriu para a mulher, que era sua sobrinha e tinha vindo passar uns dias na cidade, fazer contatos e procurar uma casa, se desse certo sua mudança, que dependia do resultado do vestibular. a menina parecia contente de poder sair de casa, mas depois parecia desanimada quando viu as dificuldades que teria para procurar onde viver. sua irmã tinha gentilmente recusado a oferta que ele fez, de abrigar a sobrinha em sua casa, quando conversaram pelo telefone: “ela precisa aprender a se virar, ernesto”, marta tinha dito. “eu prefiro que ela more sozinha ou com alguma amiga da mesma idade.” e agora, depois de recebê-la por duas semanas em casa, ernesto não podia estar mais de acordo com a irmã. a sobrinha era desleixada, egoísta, algo perigosa. felizmente, estava voltando para a casa da mãe. mas ernesto antecipava que iria ficar exasperado no futuro, quando fosse buscá-la alcoolizada ou tirá-la da cadeia ou recolhê-la no hospital, depois que as amigas a largassem lá para uma temporada de glicose. tentou sorrir para ela, mas o sorriso saiu amarelo. a convivência tinha azedado. ele devia estar contente por estar se livrando dela, e estava, mas também havia uma pontada de culpa por pensar assim, além daquela que lhe aguilhoava o coração. ele não ia chegar vivo ao estacionamento, pensou, mas tinha que pelo menos esperar a sobrinha embarcar para então entregar os pontos e deixar o coração ter o piripaque que quisesse. “o que você tanto escreve nesse bloquinho, tio?”, a menina finalmente perguntou. “as minhas histórias, você sabe”, ele fez um gesto com a caneta entre os dedos. “os contos, como aqueles do seu livro?” ela insistiu. estava se mostrando gentil quanto mais próxima ficava a hora do embarque. “também, mas não só. tudo o que me passa pela cabeça eu anoto. uma ideia para um conto, ou um romance, ou mesmo para um roteiro.” ela sorriu. “eu não sabia que você escrevia roteiros”, disse. “só de brincadeira. são ruins. nenhum virou filme.” o que tinha acontecido com ela, que se transformou numa pessoa gentil e interessada nele, de repente? “você já usou sua família ou seus amigos como personagens?”, ela quis saber. pelo sistema de alto falante fizeram a chamada para o voo dela. “o tempo todo”, ele disse, “mas como inspiração e às vezes eu uso só um detalhe, um gesto, o jeito de segurar a xícara ou de colocar o cabelo atrás da orelha, um brinco ou um colar.” “ninguém reclamou?”, ela tinha aberto o portão das perguntas. estava se levantando e ao mesmo tempo se dobrando para a frente de modo que a mão pudesse alcançar a alça da maleta que ia com ela. a outra, a maior, tinha sido despachada. ernesto se antecipou: “deixa comigo”. quando puxou a alça e sentiu o peso, seu braço travou por um segundo e o coração rateou, mas por fim ele se ergueu completamente e os dois se puseram a caminhar em direção ao setor de embarque. “no fundo as pessoas adoram virar personagens de ficção”, ele disse, com um esgar que parecia um sorriso. “a não ser quando são mostradas sob um ângulo desfavorável. mas os escritores sempre podem alegar que é tudo ficção.” ela virou o rosto na direção dele, que era bem mais alto. “quer dizer que vocês sempre saem ilesos?”, perguntou. “bem”, ele disse, “nem sempre.” e foi naquele instante que seu coração parou e enquanto sua vida se acelerava na memória, ernesto teve tempo de pensar que talvez não iria se exasperar tanto assim, aquela talvez se revelasse uma grande garota no fim das contas, mas era pena, ele não teria tempo para conferir.

 

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