reflexões sobre morte

touro

 

 

a morte é sempre violência, ruptura que parece injusta, embora todo mundo saiba que ela é o último estágio de qualquer vida — a não ser a dos deuses entediados, condição inescapável da imortalidade — e portanto a noção de justiça não se aplica. o fato é que toda vez que alguém decide cometer suicídio está zombando da imortalidade, o que deve deixar os deuses especialmente irritados.

a ideia — e a execução — do suicídio envolve sempre violência contra o próprio corpo, contra o prolongamento da finitude inevitável. acresce que suicídios em geral provocam sujeira: pescoços enegrecidos pelas marcas da corda, cérebros espalhados pela cozinha, juntamente com muito sangue espirrado nas paredes. morrer é sujo, embora a maioria das pessoas não se dê conta disso porque delega a incumbência de lidar com o corpo a um profissional especializado. o cheiro de podridão que a morte sempre carrega não se disfarça por muito tempo, enterre logo o corpo antes que o fedor se torne insuportável.

o suicídio assistido vai contra essa noção de que o ato precisa envolver sujeira. mas obviamente ele tem limitações e só é oferecido a pacientes de doenças terminais cuja condição seja declarada irreversível. além disso, o paciente precisa estar no controle das faculdades mentais; um teste com psicólogo é necessário. todos esses procedimentos, a ordenação a que a morte parece ter sido submetida dão a impressão de que o que se deseja é de alguma forma garantir para a morte um tipo de controle que vá contra sua essência violenta. uma fórmula recorrente que as pessoas lançam mão é dizer que fulano morreu em paz: ninguém morre em paz, a morte é tão estranha e exclusiva quanto o nascimento, estão ambos na fronteira da incompreensão.

a morte afinal escapa de ser entendida, porque é preciso estar morto para que o entendimento ocorra e talvez — muito provavelmente — não reste consciência então para se saber do que se trata. o suicídio assistido é como se a morte pudesse ser domesticada em sua brutalidade absurda. mas nem por isso zomba menos da imortalidade tediosa e acachapante dos deuses.

 

7 comentários sobre “reflexões sobre morte

  1. natalia emerich 19/02/2013 / 10:45

    me lembrei de uma conversa informal que travei com brás cubas. à época, já defunto, enquanto revelava suas memórias, ele falou sobre uma experiência que teve com a morte (antes de bater as botas). eis que entre a vontade de cometer suicídio, a proximidade com a morte e o medo de ser acometido por ela, ele concluiu: eu, que meditava ir ter com a morte, não ousei fitá-la quando ela veio ter comigo… não sei, mas penso que invariavelmente a imortalidade tediosa e acachapante dos deuses leva vantagem sobre nós.

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    • paulopaniago 19/02/2013 / 11:03

      muito bom o teor dessa sua conversa. mas penso que levamos vantagem sobre os deuses: um sentido de urgência, de aproveitar, que eles jamais entenderão…

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  2. natalia emerich 19/02/2013 / 11:30

    sei não. interpreto o “sentido de urgência, de aproveitar” como atos de desespero e de lamentações inevitáveis causados pela impossibilidade da vida. e aí mais uma vez a imortalidade leva vantagem sobre nós. bom, volto ao assunto depois de experimentar a morte. haha. beijo

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    • paulopaniago 19/02/2013 / 20:30

      atos de desespero nada, pois se é vida. intensa, porque efêmera… deixe os pobres deuses com suas limitações e impossibilidades de morrer…

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  3. thaís figueiredo 19/02/2013 / 23:24

    gostei bastante do texto, não apenas porque você discutiu um tema bastante importante para mim, mas principalmente pela lembrança da possibilidade do suicídio assistido. não concordo com a afirmação de que ninguém morre em paz, porém. se a morte é incompreensão, a generalização é perigosa e incompleta. mas a minha dúvida maior, e eu passo a bola para você, é: suicício assistido (no caso citado pelo texto, ou seja, envolvendo paciente terminal) pode mesmo ser chamado mesmo de suicídio? pois essa possibilidade me parece bem diferente das outras sobre as quais eu já refleti. até porque o caráter voluntário perde um pouco de força diante do componente da dor, da perda da dignidade…

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    • paulopaniago 20/02/2013 / 9:32

      a consciência de que a morte acontece uma única vez e de maneira irreversível (não estou considerando os ressuscitamentos médicos, que ocorrem em hospitais) dificilmente deixa qualquer pessoa tranquila, mesmo que ela se prepare mentalmente a vida toda para isso. eu acho. portanto, sustento que ninguém morre em paz, mesmo. agora, quanto a saber se é suicídio, realmente, o terreno é pantanoso. porque envolve eutanásia, sem dúvida, mas na eutanásia outra pessoa está tomando a iniciativa (desligar os aparelhos, por exemplo), enquanto no suicídio assistido, a pessoa responsável pela ‘eutanásia’ fornece a pessoa que comete o ‘suicídio’ um copo de pentobarbital sódico. e, por iniciativa da pessoa, ela ingere o conteúdo do copo. sim, houve participação exterior. mas o ato último, da ingestão, foi do ‘suicida’. é suicídio ou eutanásia? ou a combinação dos dois? devolvo a bola para você.

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  4. thaís figueiredo 20/02/2013 / 12:01

    ah, que complicado. sim, eu sabia que havia ajuda externa, e sim, eu sabia que a pessoa ingeria alguma substância. o que me deixa pensativa é a iminência da morte. prolongar a vida de certos pacientes, na maioria dos casos, é também prolongar a dor. mas aí me lembrei que dá para levar a minha afirmação anterior para o lado filosófico. a morte está iminente para todos nós, de alguma maneira ou de outra. os pessimistas dirão até que permanecer vivo é esticar a miséria da condição humana. por esse raciocínio globalizante, provavelmente não deve ser justo excluir a outra forma suicida, mesmo que haja nela um pouco de eutanásia, eu acho. mas enfim, preciso pensar mais sobre o assunto.

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