buscas improváveis

ilustração | nicole cioffe
ilustração | nicole cioffe

 

 

a raiva, pensei, é meu sentimento mais autêntico e, se pensar bem, talvez o único que tenha restado. o amor, que julguei sentir ou de fato senti, foi sufocado num turbilhão de contratempos do qual emergiu como cinismo. restou-me a raiva, a ira, o destempero, e quando ela assomava, vinha sempre como uma onda avassaladora que me preenchia. eu gostava de minha raiva e a cultivei como a um jardim secreto e precioso. mas ultimamente me pego tendo pensamentos de deboche em meio a crises de raiva. é como se eu conseguisse me situar acima dela (não resisto: num lugar calmo) e de lá a olhasse com alguma condescendência, como quem diz: pobre, ele ainda precisa desse alimento que a raiva lhe fornece. e o fato inescapável é que a raiva perdeu ultimamente seu teor de autenticidade. venho pensando seriamente em abandoná-la em definitivo. mas ainda não sei por que emoção eu a substituiria, se é que existe substituição possível. meu medo é ficar completamente destituído de sentimentos, a pé. talvez no fim eu reencontre o mais esquivos deles, o medo. mas penso que diante do medo não há felicidade autêntica possível — e depois penso que no fundo ainda não consegui me livrar de vez do mais renitente dos sentimentos, justamente a felicidade (mesmo que distorcida, mesmo que proveniente de sensações que muitos reputam como negativas). estou perdido no meio desse pequeno curto-circuito de emoções.

 

2 comentários sobre “buscas improváveis

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