maria

sinais

 

 

maria sorriu para baixo quando me disse, o senhor não sabe o que a gente passa aqui. não sei, maria, deu vontade de concordar, balançando a cabeça, em parte para ser gentil, em parte para fazer com que continuasse o relato. o que eu não sabia? que maria riu, sofreu, trabalhou, pariu, amamentou, traiu e foi traída (não nessa ordem), passou a ponta dos dedos pelos olhos para espantar o sono, que não se espanta assim tão fácil com tão pouco. maria adoeceu e se recuperou, viajou pouco, quase nada, trabalhou muito, a vida inteira, maria se emocionou a ponto de lágrimas quando viu na novela o amor persistir e contornar todas as barreiras, porque isso deu forças a maria para continuar sonhando acordada, os dedos sem espantarem o sono direito. eu queria colocá-la debaixo da asa e dizer, descanse. mas maria não ia entender meu gesto tresloucado e sou mais contido que expansivo, jamais abriria a asa assim para ela que mal me conhecia e mal. maria cuidou da bebedeira do marido, das doenças e mal educação dos filhos, das compras na feira, do almoço e janta de todos os dias. banhou-se no rio, frequentou a igreja com mais entusiasmo que fé, com mais esperança do que fervor, com mais perguntas que respostas. maria não conhece cinema, nunca foi a um shopping, nunca andou de escada rolante, tem medo de elevador sem nunca ter entrado em um. avião que ela conhece é na imagem tremeluzente da televisão, jamais, em hipótese alguma, teria coragem de entrar num e viajar, nem que fosse para conhecer a rainha da inglaterra, a quem afinal ela não se interessa muito por conhecer. maria banhou-se novamente no rio. era o mesmo, ela acha, diferente do que achou heráclito. mudou apenas quando lhe morreu um dos filhos do meio (o quarto de um total de cinco), afogado, numa tarde de sábado que se não fosse por isso seria igual a qualquer outra tarde de qualquer outro sábado da vida. maria vestiu luto, sofreu o sofrimento contido da educação pouco expansiva a que foi submetida, junto com todas as outras travessuras que a vida reserva para as pessoas simples e complexas feito maria. deprimiu-se menos nos meses seguintes, mas está sempre lá, a mancha, o filho morto, os vivos famintos, complicados, cheios de demandas e problemas. a vida não foi justa com maria, como não é justa com ninguém, mas algo me diz que com ela pegou um pouco mais pesado. ou talvez eu esteja sendo tendencioso, porque gostei de maria e de ouvir uma parte de sua história de sofrimentos e felicidades pouco expansivas. maria é minha heroína quase anônima, a não ser por esse prenome, maria, como tantas antes dela e tantas que ainda virão, hão de vir, é necessário que venham, o mundo não é nada sem marias.

 

2 comentários sobre “maria

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