ruídos

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duas reflexões sobre a mesma cidade 

 

1

algumas cidades são especialmente barulhentas, como se houvesse no barulho uma manifestação exacerbada de alegria. buzinas, muitos rádios e televisores ligados, conversas, pessoalmente ou por telefone (essas, ligeiramente mais altas), tráfego permanente, até as luzes, as muitas luzes, parecem fazer parte do barulho. do modo como entendo, tanto ruído tem o propósito de garantir que ninguém está se dedicando com a devida intensidade a pensar.

 

2

a cidade — qualquer cidade, mas no caso se trata desta cidade — está lá, mas nunca se apresenta por inteiro. o que se tem, o que se pode ter, são lapsos, relâmpagos, fragmentos. uma impressão que se soma a outra e outra. é sempre uma cidade diferente a cada visita, um espírito novo, um ângulo que havia ficado esquecido. uma cidade é potência a ser explorada, mas com meus olhos de estrangeiro vejo apenas exteriores, fachadas, essas pedras que estão ali há anos, tijolos que já viram tantas chuvas, a ferrugem que carcome um pedaço de ferro, sujeira ao lado de um pedaço de tradição. a cidade é caleidoscópio de possibilidades, as pessoas felizes e os pedintes sofridos, o estudante de canto lírico que se exibe por uns trocados no metrô e o dançarino de hip hop que se estica todo atrás de alguns outros trocados (quantos trocados existem a disposição deles?), a caixa negra e obesa que se equilibra entre um orgulho ensaiado no bairro e a vontade de ser gentil (sem exatamente saber como, vence o orgulho), a cidade é uma algazarra interminável que reveza festas, espetáculos, luzes, sonhos, pesadelos, movimento, agonia, violência e vibração. a cidade tem pulso, um sangue quente e interminável que corre e a mantém acesa, mesmo nos dias de tempo ruim. cidade feita de ardência e inquietude e talvez por isso eleita por tantos para virar a nova babel, com misturas entre aceitação e choque.

 

2 comentários sobre “ruídos

  1. thaís figueiredo 27/03/2013 / 11:32

    esse texto e o da senhora que ofereceu ajuda ao outro personagem são os meus prediletos da nova leva. gostei da percepção quase sinestésica da cidade. cada espaço como portador de cheiros característicos, paredes que podem ser macias ou pesadas ao toque (de acordo com a experiência afetiva), paisagens sombrias ou iluminadas, sussurros, buzinas, cantos que são verdadeiros panos de fundo. é impossível não lembrar de calvino, no qual marco polo descrevia o território conquistado por kublai khan por meio de mímica e xadrez. acho que você está dialogando com o cidades invisíveis sem saber, inclusive por meio dessa imagem de babel. em dado momento do livro, algum dos personagens chega à (brilhante? temível?) conclusão: “quem comanda a narração não é a voz: é o ouvido”. por ser estrangeiro, marco polo tinha uma forma toda peculiar de perceber as cidades visitadas e o resultado é muito bonito e poético. talvez um nativo não pudesse ser tão eficaz em captar essências, mas não sei. fica a reflexão futura para você. nada que eu possa dizer supera a sugestão acima: leia o livro do calvino e depois me avise se saiu ileso. duvido que alguém consiga. beijo.

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    • paulopaniago 27/03/2013 / 15:25

      obrigado pelos elogios, pela análise e pela sugestão, que está pronta para ser seguida, o calvino precisa ser lido com urgência, reconheço.

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