mecanismos de sobrevivência

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noite após noite ele se embriaga, sistematicamente. virou um método de viver, o que ele denomina sua filosofia do álcool. a mente flutua, entra aos poucos nessa sintonia com um calor agradável que se espalha pelo corpo. há efeitos colaterais, sem dúvida. a língua padece um gradual acidente cerebral vascular e embola-se toda sobre si mesma, dificultando a pronúncia fluente de certas palavras. o fígado vem fazendo uma filtragem cada vez pior dos humores que tentam tomar o leme e deixá-lo à margem. uma certa secura da língua se tornou o estado natural, embora o médico tenha dito que não é bem assim. pagou a consulta e depois de sair deu de ombros: “minha doença é a de todo mundo, estou contaminado de morte e qualquer hora isso deve se manifestar”. nem sinal de vacina, ele sabe. esse médico é uma anta, como todos os outros, aliás, desdenha. devia escrever o que a mente pensa quando flutua sob os efeitos da bebida, devia registrar sua filosofia do álcool. mas a revisão seria feita quando estivesse sóbrio, para evitar o avc da língua também por escrito.

 

2 comentários sobre “mecanismos de sobrevivência

  1. Thaís Figueiredo 18/04/2013 / 11:42

    “minha doença é a de todo mundo, estou contaminado de morte e qualquer hora isso deve se manifestar”, esse trecho é genial e merecia uma publicação só para ele. apesar de ter achado o resto do texto interessante, ele dá um salto de qualidade com essa frase e depois não consegue se sustentar. por isso eu acho que ela ficou um pouco destoante do resto. texto e frase têm muito potencial, mas acho que ficariam melhores separados. eu recomendaria que você reescrevesse o texto sem o trecho (não agora, mas no caso de uma publicação futura, por exemplo), e aproveitasse o pensamento impactante em um romance, talvez. mas oh, não comentei, mas gostei muito do texto de ontem. nada sobrando, nem faltando, ali. a história ficou no ponto. beijo.

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    • paulopaniago 18/04/2013 / 13:16

      você diz que não consegue se sustentar, mas eu gosto muito da expressão “filosofia do álcool”. enfim, defendo o meu, haha. mas você tem razão, acho a frase muito boa, vejo-a em a vida dos fantasmas, o terceiro volume da tetralogia infinitos literários. e obrigado pela história de ontem. beijo.

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