conflitos insolúveis

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“as formigas também nos olham de baixo”

lydia davis — tipos de perturbação

 

não havia o que ele nos dissesse a que prestássemos atenção, aquele nosso parente. era tão insignificante sua opinião, imaginávamos, do alto de nossa prepotência de parentes bem-sucedidos (todos endividados, incapazes de manter matrimônios, alguns que haviam batido nas esposas, vários alcoólatras irrecuperáveis), que sequer nos dávamos o trabalho de escutar. “‘ta, tá”, resmungávamos com impaciência e a cabeça aflita, em sua direção, quando ele queria nos dizer algo, e logo estávamos conversando com outra pessoa. a nossa indiferença se viu forçada a se transformar em outra coisa quando o corpo dele apareceu dependurado numa corda. no bilhete de despedida, sugeriu que o descaso familiar — e vários nomes específicos foram mencionados, inclusive o meu — teria sido o gatilho, mas esse texto não existe mais, demos jeito de sumir com ele. não podemos sumir é com os pensamentos fantasmas que nos restaram e que são acionados de novo toda vez que nos encontramos e nos olhamos nos olhos uns dos outros.

 

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