a cidade e eu

roda-gigante

 

 

eu olho para o mapa da cidade como se fosse um general em campanha, preparando o próximo ataque das tropas. no entanto, sempre penso nas diferenças entre o que o mapa me mostra e a trajetória que faço a pé até chegar a meu destino. há um mapa mental que se grava na minha cabeça — tantas ruas nessa direção, depois viro à esquerda, caminho mais duas e, no meio do quarteirão está o lugar aonde pretendo ir. o que vejo no caminho são prédios, lojas, pessoas na calçada a se desviar de mim ou eu delas, os pássaros apoiados nas marquises, os pedaços de nuvens e de céu, os descascados no asfalto, as cores esmaecidas e as pronunciadas. essa cidade que me recebe como turista e não me conhece, essa cidade onde sou um perfeito anônimo (só um pouco pior do que em minha cidade, onde um punhado de gente me conhece). depois penso no quanto eu me equivoco toda vez que me refiro a minha cidade, pois eu não a tenho, na mesma medida em que ela não me tem. estamos aqui temporariamente e ela sobreviverá a mim, tem essa enorme vantagem a qual nem sabe que desfruta. mas isso enquanto estiver vivo e estiver nela, porque faço essas viagens, provoco essas pequenas traições, visito as concorrentes e me admiro com ruas, pessoas, livrarias, pássaros e sobretudo com a eficiência e com a discrepância entre o que os mapas me mostram e o que a as ruas de fato contêm.

 

Um comentário sobre “a cidade e eu

  1. vanessaaquino 04/05/2013 / 19:33

    você conseguiu traduzir neste belo texto (tocante mesmo) uma impressão que também é minha, a de que mapas são bem diferentes daquilo que a cidade de fato é… sendo um pouco exagerada, acho até que os mapas aprisionam a cidade em números, nomes de ruas que não representam tudo que na cidade pode nos atrair mais que contornos, nomes e números. e essas coisas são o que oxigenam a cidade, que é viva e mutante, coisa que mapas não conseguem ser. para me guiar em uma cidade, não me dê mapas, fale-me sobre os sons e cores, outdoors, e os cheiros que trafegam pelas ruas.

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