amigos embalados

atada

 

 

começo a embalar meus amigos de papel para o transporte e me sinto sufocado em nome deles, comprimidos uns contra os outros. ali vão philip roth e enrique vila-matas na mesma caixa de papelão reforçado, talvez tenham algo a dizer um ao outro, embora nenhum se desvie sequer uma linha do próprio discurso. misturarei michel de montaigne com italo calvino para ver que samba é esse; georges perec estará ombro a ombro com thomas pynchon, quem sabe troquem ideias, talvez raios e trovões, veremos. karl kraus terá por companhia jorge luis borges e é possível que macedonio fernández se entenda com dona virginia woolf. meus amigos virarão miscelânia e eu me desespero sozinho, nem um jack daniel’s, nem um jack london por companhia. eu os perderei de vista quando os caras truculentos vierem carregá-los até outras prateleiras, minhas também, por sorte. estarei trêmulo e temeroso, quase crente pedindo a deus que não deixe o caminhão com meus amigos se acidentar e pegar fogo, rogarei ao motorista que pelo amor de seus filhos quintuplique os cuidados na curva, se for a vinte por hora é meu herói e pago dobrado. quando os desembalar na nova casa sorrirei diligentemente para cada um deles, um pedido constrangido de desculpa nos lábios. meus amigos, direi, perdão pelo transtorno, tomara que fiquemos por aqui um bom número de anos, na companhia uns dos outros, embora a minha pouco ou nada lhes diga. a de vocês, meus caros, é de suma importância.

 

4 comentários sobre “amigos embalados

  1. vanessaaquino 22/05/2013 / 10:36

    ai, que texto lindo, paniago! torço para que seus amigos passem bem durante a mudança. beijo.

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  2. patrícia leite 22/05/2013 / 11:57

    pp,

    maravilhoso, o texto. partir também é maravilhoso. implica em mudar, renovar, dialogar com outros ambientes, outros pensamentos, outras inspirações.

    e eu, meu amigo, como sabes, apesar de já ter desencaixotado os amigos, continuo no processo de mudança. e vou confidenciar… gosto desta nova pessoa que o presente está [des]embrulhando lenta e languidamente, doce e sensualmente, sem pressa, despindo aos poucos.

    desnuda do passado, sigo em frente em busca de novas vestes, algo que me sirva melhor e que combine mais com meu novo estilo de viver.

    e, por achar que a mudança me fez muito bem e que precisamos ter para onde voltar quando queremos nos recolher da presença alheia, embora eu faça mergulhos interiores quando estou fadigada dos outros, sem precisar sair do lugar, desejo que sua nova casa — esta “roupa” que nos guarda das ruas —, te sirva de lar por muito tempo.

    beijos,

    pl

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  3. thaís figueiredo 22/05/2013 / 12:22

    imaginei alguns comentários para esse texto, mas nenhum foi mais sincero e expressivo que este: sorri, e sorri muito, durante as várias leituras que eu fiz dele.

    🙂

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  4. paulopaniago 22/05/2013 / 13:42

    vanessa, obrigado pela torcida. patrícia, obrigado pelo discurso (haha). e thaís, obrigado pelas risadas (acho que você está rindo em parte do meu drama [som de violino ao fundo, para acompanhar]). eu estou muito feliz pela mudança, mas tenho que tomar cuidado com os amigos, meu segundo maior patrimônio (o primeiro sendo os filhos e os amigos de carne e osso).

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