anunciação

arte | chen han
arte | chen han

 

 

era preciso fingir que todo aquele amor que lhe era dedicado, aquela atenção especial, não lhe afetava e a verdade é que ele fingia bem, desfilava por entre as pessoas que lhe dirigiam elogios e deferências e sorrisos como se estivesse incólume. era o preço a pagar pela fama, mesmo que local — ele só era conhecido e admirado no bairro, sobretudo pela simpatia altissonante que transpirava, mas no fundo todos sabiam que era por causa do talento matemático que vinha se sobressaindo cada vez mais. ele sorria, distribuía apertos de mão e tapinhas nas costas, desmistificava a imagem de matemáticos como antissociais absolutos, perguntava pela saúde das esposas ou mães, conforme a ocasião, chamava a cada um pelo nome. só eu conseguia reparar que aquela fachada simpática escondia uma crise que galopava para alcançar dimensões catastróficas. mas eu estava impedido de dizer o que fosse — e de que adiantaria alertar as pessoas? elas precisavam ver com os próprios olhos, na hora mais adequada. o fato é que catástrofes têm agenda própria.

 

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