do alto

foto | matthias heidrich
foto | matthias heidrich

 

 

lá de cima, as coisas pareciam bonitas. tudo que é menor fica mais bonito. quando as coisas estão longe ganham um jeito interessante, indefinido, não pude deixar de pensar. olha lá, aquela fonte, por exemplo, os carros de brinquedo — e estiquei a mão para tocar. flutuando, pensei, eu iria flutuando até lá em baixo, leve, veloz, seria tão rápido e definitivo, pensei. porque não tem como não pensar, a sedução do ar, do vazio, todas as agonias para sempre esquecidas. mas aí ouvi a voz do chefe, ei, ele disse, você não vai terminar isso hoje, não? eu tenho um ônibus para pegar. disse não, gritou. a mulher devia fazer a mesma coisa, quando ele chegasse em casa. eu sei porque a minha faz. todo dia, algo para encher o saco. seu idiota, ela grita, estúpido, esqueceu de comprar o leite, esqueceu de pagar o seu joão, esqueceu isso, esqueceu aquilo. eu podia esquecer de ouvir. eu podia flutuar até lá embaixo. mas não, pego o pano, limpo o vidro, sem prestar atenção nos comentários estúpidos que as pessoas lá dentro fazem, até porque não escuto, enquanto olham nosso trabalho como se fôssemos funcionários de outro planeta. quem é o idiota?

 

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