certas histórias e bebidas

mergulho

 

 

determinados bêbados, fiéis a bares e bebidas específicos, têm meu respeito. sobretudo se além de beberem muito contam boas histórias. aquele velho, grisalho e de aparência curtida pelos muitos anos exposto ao sol, tinha sido marinheiro e viveu muitas aventuras trágicas (numa delas perdeu alguns dedos; anos depois a mão inteira, devorada por um tubarão que quase o afogou), várias simplesmente patéticas. quando eu ia encontrá-lo no bar e me solidarizar no consumo de álcool, ele se lastimava do desdém com que era tratado pelas novas gerações, sempre tão dispersas. minhas histórias não lhes interessam, ele se queixava, a voz rouca como se fosse um esforço enorme para o ar ter que se dirigir ao túnel da garganta estreita, as sobrancelhas unidas para o alto numa expressão de tristeza que a bebida agravava. vou escrever a respeito de todas, eu insistia com ele, nas muitas noites da semana que voltávamos a nos encontrar diante dos copos. você me conta, eu reconto, acrescentava. é com isso que eu me preocupo, ele devolvia, com esse recontar. era um ritual que fazíamos, sem falta. não estou bem certo se as preocupações dele eram infundadas, porque fazem seis meses que ele morreu e não apenas não comecei a escrever sequer a primeira de suas histórias trágicas ou patéticas, como continuo a frequentar o balcão do bar e a manter conversas com ele.

 

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