quando for comigo

arte | eric bellefeuille
arte | eric bellefeuille

 

 

não frequentar a igreja não era nem de longe o pior defeito daquele homenzinho circunspecto, lourival, seco de carnes e contido nos gestos, não nas palavras. sua principal indiscrição era nos contar os pormenores dos clientes. ele não tinha pudores de desnudar qualquer uma das famílias que o procuravam em nossa pequena cidade, em busca de serviços especializados. por via das dúvidas, fui à cidade vizinha e contratei por lá, antecipadamente e por bom dinheiro, os serviços do agente funerário, para quando chegar minha vez. não quero alguém falando das carnes que restarem em meu cadáver, quando for a hora. eu sei que lourival não faz isso por maldade e só revela indiscrições porque está entre velhos amigos, frequentamos todos a mesma escola. não acho que ele falaria de mim. mas nunca é demais se precaver.

 

2 comentários sobre “quando for comigo

  1. olha, eu resolveria de outra forma o lance: cremação deixa tudo mais rápido e prático. mas, de qualquer forma, iremos ligar pouco para o que falarem. como diria w. allen, “morrer é definitivo. só não quero estar lá quando isso acontecer comigo”.

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