resgate

arte | egon schiele
arte | egon schiele

 

 

não quero saber onde é o buraco em que você se esconde, esbravejei para ele. era duro reencontrá-lo assim, anos depois do incidente, a aparência de alguém a quem a vida tinha dado mais castigos do que recompensas. eu também não podia me vangloriar, tinha atravessado minha cota de revezes com mais perdas do que prêmios. mas aquele canalha me devia e quando o encontrei por acaso, ele disse que me daria uma parte do dinheiro. que eu fosse buscá-lo em sua casa, disse, e não parecia temer que eu de fato me apresentasse por lá. pediu papel para começar a escrever o endereço. foi quando eu disse aquilo. não queria saber onde era o buraco em que ele se escondia. na verdade, eu não me interessava nem um pouco pelo dinheiro que ele me roubou. ele ter se casado com glória, isso era o que mais me magoava e o imperdoável naquilo tudo. o dinheiro podia deixar passar, era só dinheiro. mas quando ele disse que glória havia morrido há alguns anos e percebi que nada fazia mais qualquer sentido, foi nessa hora que puxei minha faca de debaixo do capote e a enterrei com gosto e de modo certeiro no coração do meu ex-comparsa e adversário eterno. pelo menos aquele coração eu podia dizer que consegui atingir e me pareceu ver nos olhos dele algo dos olhos de glória, enquanto ajudava o corpo a se estender com suavidade sobre o chão.

 

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