ser ator

ilustração | grzegorz chudy
ilustração | grzegorz chudy

 

 

então ali estava ele, sobre o palco, nu, o texto mil vezes dito nos ensaios, decorado, testado, virado do direito e do avesso. e acresce que tinha experiência de muito tempo, nada o desarmava, sabia improvisar, colocar um caco qualquer, o tempo, as manifestações, a crise, o eterno e o transitório, qualquer coisa que captasse sua atenção de manhã, quando parava diante da banca e escolhia algo para ler e ficar atualizado. a nudez não era mais incômodo, o corpo é apenas o limite, ele havia aprendido, testado, decorado, ensaiado, nem qualquer odor que lhe saísse pelos orifícios — qualquer um — lhe era estranho ou constrangedor. há muito tempo tinha ultrapassado a etapa que a maioria dos humanos nunca alcança (é simples, ele disse certa vez para um repórter que o entrevistava, é bem simples, você é um animal e precisa apenas recuar até esse ponto novamente, parece um avanço, no fundo talvez seja, mas na verdade basta entender que é um recuo até o ponto primitivo, bem simples, entendeu? mas também não explico de novo, se você não entendeu, paciência).

o texto. aquele texto. as emoções que precisava invocar para dizer aquele texto. tão bonito, as pessoas diziam, depois, no camarim, quando vinham cumprimentá-lo, uma foto, depois estava no facebook, os sorrisos forjados, o dele, tão naturalmente forjado que nem se percebia mais o artificial. o texto. a força das palavras. o empenho do gesto para concentrar ainda mais e dar peso, ou dar consistência, melhor que peso, àquelas palavras. mas então se deu conta de que não podia mais. a vida inteira uma farsa bem sucedida que não podia mais. ele se viu, afastando-se do palco no meio do espetáculo (houve quem pensasse, por alguns segundos, que aquilo fazia parte da apresentação), dirigindo-se não para o camarim, não para os pontos seguros, não para casa, mas para longe, para lugar algum, nem mesmo o holofote a lhe fazer companhia enquanto caminha para fora da marcação. o que hamlet diria? o que shakespeare? o que os senhores das milhares, bilhares, zilhares de farsas, principalmente as bem sucedidas, teriam para dizer? possivelmente o óbvio. que ele se perdeu, que se degradou, que não faz mais parte de nossa turma etc. etc.

por alguns minutos, cogitou se a crise não seria parte de sua representação da crise, um lapso de inquietação apenas para lhe dar de novo a rede de segurança. mas não. continuou em direção à porta, à rua. nunca mais foi visto, pelo menos não com aquela cara que usava sobre o palco, quando ficava nu e era aplaudido. aquela cara tinha ficado para trás, em velhas linhas do tempo do facebook que ninguém vê mais.

 

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