jovens e não

foto | chuck burgess
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a minha ausência de simpatia e compaixão fazia de mim o pior dos candidatos para o cargo de professor. a isso se somava minha impaciência para com a arrogância juvenil, por sinal a mesma que eu tinha dado mostras de possuir em quantidades cavalares, quando o jovem em questão tinha sido eu mesmo. no entanto, aquilo fazia parte do meu passado muito remoto e agora eu podia me dar o luxo de esnobar a arrogância da juventude como se fosse uma praga terrível e o meu dever de super-herói fosse erradicar aquele vilão da cidade de nome sombrio sob minha alçada. jovens, eu dizia, imitando a voz cavernosa e cínica do velho nelson rodrigues, que eu tinha visto num vídeo em preto e branco, quando ele deu entrevista para um canal de televisão e lhe perguntaram que conselhos daria aos jovens de seu tempo. envelheçam, tinha tonitruado nelson e agora eu ecoava. desprezar a juventude é prerrogativa de poucos, numa época em que todo mundo insiste em infantilizar a cultura universal. de modo que eu me encontrava em excelente companhia. mas se me perguntassem de verdade, eu tenho que dizer que não é só a juventude o alvo dos meus problemas, mas também os jovens adultos, os adultos maduros, os velhos, tanto faz se fossem sábios ou idiotas rematados. o mundo era o grande teatro para o meu mau humor e eu não ia desperdiçar qualquer oportunidade de cuspir na cara dele por isso.

 

2 comentários sobre “jovens e não

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