organizado

arte | vincent van gogh
arte | vincent van gogh

 

 

ele era aquele tipo de pessoa para quem sensibilidade é um tipo de doença. saía de casa sempre com uma capa de chuva dobrada no braço. o tempo jamais seria capaz de surpreendê-lo. eu imaginava que teria as contas bancárias tão organizadas quanto o mais. se morresse, a família não teria qualquer trabalho. duas gerações de planejamento árduo e minúcias ponderadas até a última gota. era um homem que mantinha o acaso em rédeas curtas e nunca seria surpreendido pelo inesperado — era ele quem devia pregar sustos nas surpresas. mas então morreu. tudo saiu de acordo, o mausoléu comprado com antecedência, o caixão, as despesas previamente arranjadas e os papéis devidamente assinados, as firmas reconhecidas, guardados nos lugares certos. tempos depois encontrei o filho, totalmente fracassado, cabelo em desalinho, olhos fora das órbitas. o planejamento do pai tinha ido por água abaixo com aquela criatura perdida que eu tinha em minha frente, pedindo uns trocados para comer — eu deduzia sem muito medo de errar que seriam gastos com alguma droga, possivelmente crack. o além te surpreendeu, meu velho, pensei em silêncio, enquanto deslizava duas cédulas para aquele fiapo humano que desencadeava em mim uma onda de patologia.

 

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