a boca um túmulo

fachada-de-carro

 

 

fala, arnaldo, por que você não fala? eu aqui botando o meu coração para fora, sempre fui essa mulher que não para de falar dos próprios sentimentos, te entrego todas as vezes o que sinto, minhas emoções e você aí, mudo, estático, como sempre. um dia a gente se cansa, você sabia?, desse silêncio todo. eu sei que toda vez repito esse meu discurso, digo que vou me cansar e estou com você tem quanto tempo?, quinze anos, né, próximo mês. mas cansei, sabia, cansei desse seu silêncio profundo, de ser ignorada, tratada como sei lá o quê, mulher-objeto, objeto sem mulher, cansei, caralho. você pelo menos sorria para mim no começo e era tão bonito que eu podia passar por cima desse seu silêncio, mas ele cresceu tanto esse tempo todo que parece que tem mais alguém na sala junto com a gente, sabia? e além disso o tempo fez um estrago nesse seu rosto e nem bonito você é agora. me incomoda, não suporto mais, é só a minha voz e até dela eu estou me cansando. eu sei que hoje é particularmente difícil para você falar, mas agora que nossa situação mudou tão radicalmente você podia para variar me surpreender e dizer alguma coisa, em vez de ficar olhando para cima, com esse olho aberto. fala agora, desgraçado, abre o bico, põe para fora o que você sempre escondeu aí dentro do peito. foi para isso que eu abri ele, para ver se agora você fala. não vai dizer nada, arnaldo?

 

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