destemperos

chaves-e-livros

 

 

faça-me o obséquio, ouvi que a voz dele dizia, por detrás do bigode. usava chapéu vetusto e uma bengala elegante que devia ter custado caro e ter sido bem difícil de encontrar. tudo nele transbordava dignidade e algo no formato do rosto e na altura e desenho da lapela me lembrava o ar de paul valéry naquelas poses intelectuais que ele parecia gostar de fazer. talvez fosse o encanecido no cabelo. não sei. pois não, eu disse, todo o meu ser inclinando-se para a frente, tentando ser prestativo com o descendente direto de um dos meus pensadores prediletos. vai que. o senhor vá a puta que te pariu, ele me disse, sem mover um fio do bigode. a voz dissociada. não sei o motivo da reclamação — era a primeira vez que eu o via. ele então se virou de costas e caminhou a dignidade real para a fora da minha loja de antiguidades. quando me dei conta de quem ele era e porque me xingava, quando percebi que poderia ter respondido que o diabo o carregasse para o quinto dos infernos com toda a sua empáfia que não vinha de hoje, era tarde, ele havia atravessado a porta e sumido entre a multidão.

 

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