amargo

foto | robert herman
foto | robert herman

 

 

“dosando suavemente o nada para não se machucar”

julio cortázar — o jogo da amarelinha

 

visitava os amigos cada vez menos. caminhava pelas tardes vazias sempre um pouco mais. o mate e o café seguiam iguais. lia cada vez menos jornais, cada vez mais poesia. havia aprendido um método para separar os poetas excelentes — raríssimos — dos medíocres, mais nocivos que pragas de gafanhoto e persistentes como as estações do ano. não se importava que cada vez menos as editoras se interessassem pela publicação dos poetas, os que tinha eram uma cota generosa e suficiente, além disso sempre se podia iniciar a releitura. produziu uma importante série de ensaios dedicada ao tema da solidão, que quase não tinha quem a defendesse. os homens são barulhentos e gregários, por hábito, cultura e tradição, ele sabia. de onde a necessidade de novos paradigmas. tinha consciência de que, quando morresse e o corpo fosse encontrado em estado avançado de putrefação, depois que os vizinhos convocassem os bombeiros por conta do mau cheiro, os manuscritos seriam descartados, bem como o resto de suas coisas parcas. pensando bem era mesmo o melhor caminho. portanto escreveu com liberdade e gosto.

 

3 comentários sobre “amargo

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