certos ajustes necessários

mulher-de-costas

 

 

aquele sujeito, longe de ser crítico musical ou mesmo iniciado, aguardou o recital até o fim, embora o público escasso não tenha tido a mesma paciência, saindo deliberada e às vezes furiosamente durante as escalas e intervalos de silêncio de duração variável, homenagem a anton webern ou a john cage, não estava bem claro. ao final, o sujeito se juntou aos dois ou três amigos do pianista que haviam permanecido para expressar solidariedade, embora ela parecesse custar caro. o sujeito então ergueu a mão para o pianista, como se quisesse cumprimentá-lo, e com um sorriso e uma voz estudadamente suave, disparou: “o senhor deve imaginar que tem algum tipo de missão educadora neste mundo, abrindo caminhos para uma música difícil e inacessível. mas o fato é que as composições que o senhor escolheu são horrorosas, não há outra palavra para descrevê-las, horrorosas demais, e me permita enfatizar o ‘demais’. além disso, o senhor toca mal, quer dizer, de maneira medíocre e corriqueira. sei que deve imaginar que se trata de um gênio incompreendido com uma missão inglória autoatribuída, mas a verdade é que o senhor deveria virar alguma coisa mais útil, padeiro ou arquiteto, sei lá, qualquer outra coisa que não maltratador de pianos, essa atividade que jamais poderia ser chamada de profissão, no seu caso. era o que eu tinha a obrigação de lhe dizer e por isso esperei até o fim da apresentação e agora sei que o senhor vai querer rebater o que eu disse com argumentos, sobretudo minhas sugestões que o senhor não acha úteis porque não é de utilidade que trata a arte e blá-blá-blá, mas a verdade é que não estou minimamente interessado em qualquer que seja a linha de raciocínio que o senhor tem para me apresentar e os seus argumentos foram apresentados sonoramente, de modo que me poupe de também ter que ouvir o timbre da sua voz”. então se virou e se dirigiu com tranquilidade para a saída.

 

6 comentários sobre “certos ajustes necessários

    • paulopaniago 09/10/2013 / 14:19

      pois é, mariel, essa história tem mesmo certa marca de crueldade, mas também do destempero dos personagens que perderam a noção de realidade (às vezes, fico em dúvidas se não pertenço a essa categoria, pessoalmente…).

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  1. cristina porto costa 09/10/2013 / 14:37

    quando a música aparece nos seus “desaforos”, curto mais ainda. encontro muito desafogo nos seus desaforos. pergunto-me: qual a face da moeda que o autor vai mostrar hoje? reflexão, riso solto, esbarrão existencial? a de hoje foi, sem dúvida, musicalmente fatal… e gostei.

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    • paulopaniago 09/10/2013 / 16:26

      obrigado, cris, pela leitura, comentário e apreciação. a de hoje veio inspirada por um capítulo de o jogo da amarelinha, do julio cortázar.

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  2. cecília 25/03/2014 / 17:14

    maravilhoso! queria ter coragem de ser assim kkkkkk

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