amor e poesia

ilustração | alexander jansson
ilustração | alexander jansson

 

 

não se sabia quem era mais infeliz. se ela, por haver se casado com um poeta. se ele, por ser poeta e nunca conseguir se livrar dos delírios de grandeza ou da profunda melancolia que costumam frequentar essas pobres criaturas. mas entre sacrifícios recíprocos e alguns momentos de iluminação, resolviam-se mutuamente. “ele precisa de mim”, ela mentia para as amigas, que fingiam acreditar. “não a suporto mais”, ele mentia aos amigos, que não se interessavam. e um para o outro, mentiam-se a respeito de outros assuntos. quem os via de certa distância, caminhando lado a lado com a sacola de compras da feira, julgava-os felizes. ou remediados, conforme convinha a cada um. os livros de poesia escassearam com o tempo — secava a inspiração, engolida pela potência da realidade. um poeta é menos poeta se publica menos?, perguntava-se. menos poesia, mais álcool, enunciava a lei das compensações. não adiantava parar de beber para a escrita voltar — ele testou, para ver se funcionava. os poemas se parecem com a filosofia no quesito consolação. a diferença é que a filosofia pretende salvar também os outros, a poesia afunda poeta e leitores ainda mais no pântano existencial (motivo pelo qual editores estão redimidos de reticências quanto a publicar poesia…). “me casei com um poeta, não com um bêbado”, ela lastima para ele, ambos remediados, mas muito infelizes. “talvez você sirva de exemplo para as gerações futuras, que saberão o que evitar”, ele a consola. sem muita eficácia, no entanto.

 

4 comentários sobre “amor e poesia

  1. michele viviane vasconcelos 15/10/2013 / 11:10

    muito bom! percebi a complexidade de um poeta. não percebi o amor. um poeta consegue viver diversas pessoas, diversos sentimentos, diversas histórias, quando escreve. porém, existem poetas que encontram mais beleza na tristeza do que na alegria, por exemplo. mas, isso nem sempre significa ser triste, pois, nem sempre se veste a poesia derramada.

    um poeta tem uma lupa nas mãos o tempo todo. acontece que a secura de inspiração se estabelece quando não há mais vida à sua volta. é como se sua lupa estivesse borrada. é preciso mudar, é preciso reaprender o mundo! como? exercício íntimo de um poeta, o como não se ensina, se descobre.

    e este, como poeta, tem uma possibilidade imensa de sensações a explorar, e, mesmo que os poetas sejam todos parecidos, cada um tem sua própria personalidade, perceptível na escrita. como uma digital. bom, f. pessoa tinha mais de uma.

    conheci um que ateou fogo em dois cadernos universitários de 200 folhas cada. os dois cadernos preenchidos com poesia de ponta a ponta. isso não o tornou menos poeta… mas, ninguém pode dizer que ele não tentou.

    o poeta bêbado é um poeta com sua lupa borrada, habitando uma gaiola.
    o poeta não afunda leitores em geral. o poeta só afunda os leitores que não nasceram para a poesia.
    o poeta é ferida aberta, e vez em quando, não.

    (…) se, em tudo aquilo que faz, ele (o homem) olhar para a derradeira falta de objetivo da humanidade, então sua própria atividade adquire, a seus olhos, a características da dissipação. mas, sentir-se como humanidade (e não somente como indivíduo) “desperdiçado”, como nós vemos desperdiçadas pelas natureza as flores isoladas, esse é um sentimento para além de todos os sentimentos. mas, quem é capaz disso? certamente, só um poeta: e os poetas sabem se consolar. (…)
    nietzsche, hdh

    p.s.: e a imagem que escolheu, fantástica!

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    • paulopaniago 15/10/2013 / 13:17

      obrigado pelo comentário, michele. e me permita um comentário também. você não percebeu o amor porque o amor não está presente na narrativa a não ser no título. ou seja, houve intenção irônica do autor (culpado, admito). qual seja, a de dizer que o tema da poesia é necessariamente o amor, senão em si, como manifestação de vida (e poesia tem que estar profundamente interessada na vida). acontece que quase sempre as pessoas terminam por se esquecer disso. um sintoma de desistência da vida se daá quando as pessoas desistem de, vamos dizer, sonhar. e essa, me permita, doença, atinge também, infelizmente, os poetas. no caso em questão, o personagem. mas eu não devia estar comentando essas coisas. enfim. agora foi. vou deixar aqui. valeu. um abraço.

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      • vanessaaquino 15/10/2013 / 22:29

        “era a única coisa que ela ainda não tinha pego: amor.” (o fabuloso destino de amelie poulain)

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