pluriversos e abismos

livros-flutuantes

 

 

no livro comprado por gostar do autor, lúcio leu conto que fala a respeito desse sujeito que se recupera de cirurgia e adquire audacidade na mesma proporção, então vai para a suécia e, no aeroporto, compra livro que apresenta uma “teoria inflacionária do cosmo”, na qual, em vez de universo, haveria “pluriverso”. lúcio imaginou que o personagem do livro poderia ter consciência de ser ficção, tal como ele mesmo tem. algo parecido poderia ocorrer ao escritor espanhol, um certo senhor vila-matas, também ele ficção, embora lúcio o tenha visto apresentar-se num encontro de literatura, no qual o escritor falou a respeito das vantagens de se fracassar, mesmo e sobretudo quando se faz sucesso — a forma aparentemente invertida de fracassar. naquela ocasião, o escritor pareceu bem real, sobre o palco, sentado próximo a um microfone, lendo o que havia escrito. talvez num pluriverso pudessem ser vizinhos, amigos e ter longas conversações a respeito de pluriversos e literatura, armações e distopias ou, quando nada, o destino comum de todos os fracassados de sucesso, o bar e a bebida. mas no universo em que se encontrava, lúcio não era conhecido de vila-matas, que conhece a bem pouca gente, portanto restava-lhe apenas sentar-se à mesa do escritório e escrever uma narrativa na qual ele, lúcio, não passa de personagem que escreve a respeito de escritor que o teria inventado, chamado paulo paniago, também desconhecido de vila-matas, embora paniago também o tenha visto apresentar-se num encontro de literatura. lúcio pensa: e quem está sentado à mesa para criar paulo paniago? talvez vila-matas. mas depois, quem seria o criador de vila-matas e assim sucessivamente no modo infinito. se literatura não serve para outra coisa, serve para enlouquecer as pessoas, alguém escreve, lúcio, paulo paniago, vila-matas ou quem os criou a todos. não sei. alguém.

 

2 comentários sobre “pluriversos e abismos

  1. thaís figueiredo 07/11/2013 / 11:53

    essa história é tão deliciosa. inclusive, por que vocês, lúcio, vila-matas, paulo, não a conceberam com um pouquinho de antecedência? eis aqui uma boa história que escapou, mas sei lá, talvez toda boa literatura seja escorregadia, mesmo. beijo.

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    • paulopaniago 07/11/2013 / 12:57

      a gente tinha programado uma reunião de todos para discutir isso, mas as urgências da agenda do vila-matas falaram mais alto, como sempre. é revoltante! e obrigado pelo elogio à “boa literatura”. beijo.

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