legado de pedra

foto | al sattherwhite
foto | al sattherwhite

 

 

morto e canonizado, cada vez mais gente anda a escrever a respeito do escritor, que era bom em vida, mas parece melhor agora. criam-lhe um dia de homenagens com leituras de trechos da obra e estudos, o personagem daquela que é considerada a obra-prima vira adjetivo (que maior homenagem? essa entrada certeira na vida pedestre), nomeiam um time de futebol com um animal que é claramente retirado de sua obra. ele estaria contente com tanta repercussão e mesmo com as leituras estranhas — ele não diria equivocadas — que fazem dos romances, contos, artigos de jornal, polêmicas. o conjunto de pedra que é o legado da obra cristaliza-se e se sedimenta, o que também é inquietante, como apontam alguns sagazes. a maleabilidade deveria ser o valor, não a fixidez. a chama, não exatamente o cristal, ou pelo menos os dois, como defendia italo calvino. pranteado na terra, à qual não mais pertence, o escritor é esquecido pelos anjos que o cercam, estigmatizado. será preciso fazer o romance desse novo ambiente — o romance que sempre foi um acerto de contas com a falta de lugar no mundo. escritores não podem ter descanso eterno, nem pensar.

 

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