reencontros

navio

 

 

podia ver nos olhos dela que não se lembrava de mim. aquele olhar que te atravessa e ao mesmo tempo gostaria de se virar para dentro para vasculhar melhor nos arquivos da memória. um olhar em fuga. comecei sem mostrar a sem-graceza, disse meu nome, ela tentou disfarçar, depois se via que procurava juntar aquele nome e a imagem do rosto, envelhecido de uns vinte anos e várias adversidades, o tempo que tínhamos nos visto pela última vez e as adversidades que eram parte da minha história pessoal. aquilo devia se encaixar em alguma situação específica: escola, trabalho, clube, círculo de amigos do bloco, de onde nos conhecíamos, ela devia estar se perguntando. despejei duas ou três perguntas óbvias sobre a vida em geral, em nome de uma polidez que respondia mais a algo meu do que dela, depois me despedi, sem esclarecer de onde nos conhecíamos. imaginei que levaria uns dez minutos de inquietação, se muito, até que ela se distraísse com algum outro assunto e lançasse a minha imagem e nome de novo para o buraco negro de onde a ausência de um lugar definido aguardava, com paciência.

 

deixe um comentário ou um desaforo

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s