vida em conjunto

remo

 

 

era dezembro, o sol se organizava mal entre as nuvens de chuva, calor e umidade, essa combinação fatal, e nós com a obrigação de enterrar papai. discutíamos por tudo —- eu queria música, ninguém concordou; eu queria o epitáfio que meu pai escreveu, não aceitaram; o fato é que me transformei numa minoria descontente dentro dessa família, a voz dissonante, já estava ouvindo na mente me chamarem de ovelha negra —- e os ajustes pareciam não articular qualquer desenho. fico pensando, não sei se cheguei a dizer em voz alta, que essa defesa insistente do próprio ponto de vista é menos desgastante do que divertida porque ajuda a nos ocuparmos das minúcias e esquecer o essencial, um dos principais truques que os humanos fazemos. no caso, tratava-se de fingir ignorância ou pelo menos altivez diante do fato que papai não estava mais vivo. antecipei a imagem de mamãe a se atirar na cova e gritar para ser enterrada também, mas isso era ridículo, maldade da minha imaginação, minha mãe era sóbria demais e iria se ater ao papel de viúva que deixa uma lágrima deslizar discreta para o lenço que retém na mão, enquanto é amparada pelos filhos mais velhos. a última briga eu estava de antemão disposto a perder: voltaríamos para casa e nos reuniríamos em torno da mesa para começar a discutir o espólio. minúcias essenciais para que os vivos se mantenham vivos. então decidi que mesmo não tendo o menor talento para brigas por dinheiro eu ia adotar uma postura encarniçada nessa disputa, lutaria até o último centavo —- talvez depois doasse tudo à caridade. apenas para vingar papai, que não pôde ter seu epitáfio respeitado. só porque nele se dizia: não estou nem aí. minha família, que não tem muita imaginação, tomou a frase como ofensa pessoal, quando não passava de divertimento pós-vida.

 

7 comentários sobre “vida em conjunto

  1. voudemoda 05/12/2013 / 15:26

    ainda tenho pendências para dizer não estou nem aí! o meu provavelmente viria: obrigada por me aceitarem como sou, não tenho mais tempo para melhorar…

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    • paulopaniago 06/12/2013 / 9:51

      todo mundo sempre tem pendências. a única resposta possível para a morte seria: volte mais tarde, minha senhora.

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  2. aurea cristina szczpanski 05/12/2013 / 21:35

    que epitáfio maravilhoso! não estou nem aí, porque a partir daqui não mais depende de mim e eu nem sei o que vem depois… e por aí vai…

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    • paulopaniago 06/12/2013 / 9:52

      valeu, aurea. o melhor epitáfio que já li está no livro o teatro de sabbath, de philip roth. ele faz um extremamente desbocado.

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