coragem é um cavalo desembestado

cavalo

 

 

para ele, escrever era ganhar e perder uma vocação —- e reaprendê-la toda vez que ia começar um novo livro. quando terminava, meses ou anos depois, geralmente adoecia, tal tinha sido o empenho para concluir o texto. era sua vida que suava, transbordava e sobretudo reinventava quando passava tanto tempo escrevendo e reescrevendo alguma história. a última tinha sido a respeito de um cavalo que precisou transportar com o avô, quando era criança e tinha doze anos, da fazenda até o local determinado pelo veterinário, onde seria sacrificado. o avô reconhecia a necessidade do ato —- o cavalo tinha uma doença incurável e dolorida —- mas também sua incapacidade pessoal de praticá-lo. “você recebeu tantos anos de sacrifício deste cavalo, vovô”, ele fez o jovem personagem dizer, “que seria agora justo que o senhor também se sacrificasse um pouco para ter a coragem de matar o cavalo”. o avô olhou para ele com um jeito que não conseguiu traduzir. podia estar sério ou triste —- não apenas pelo cavalo e pela própria incapacidade de sacrificá-lo, mas sobretudo por escutar seu neto lhe apontando aquela falha de caráter. os abismos de comunicação entre gerações encontravam novas formas de se manifestar entre aqueles dois. não pretendia voltar a escrever tão cedo —- talvez não voltasse nunca.

 

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