outra história de amor

banheira

 

 

achei que ouvia as chaves na fechadura. ela voltou, me enganei. a esperança é ótima para inventar variações de histórias e manter as expectativas em alta. tirei o prato do forno e pus o vinho sobre a mesa. acendi a vela outra vez e outra vez troquei a água do vaso de flores. mantive o prato dela sobre a mesa durante todo o tempo em que me forcei a me alimentar —- caso contrário ia entrar na zona de extinção em breve. ainda esperei um minuto ou dois, achando que ela entraria, um sorriso torto e um pedido de desculpas pelo atraso, a chuva tinha tornado o trânsito uma impossibilidade. tiraria a capa de chuva molhada e penduraria em qualquer lugar, como fazia sempre, molhando algum dos tapetes da sala de forma displicente. o amor não tem tempo para minúcias, eu a perdoaria. beberíamos o vinho, devoraríamos o jantar, riríamos das histórias que nos aconteceram durante o dia, a semana, o mês, faríamos sexo selvagem sobre os tapetes da sala. no entanto, na vida real, minha fome minguava, minha sede se ampliava e já me antecipava frequentando futuras reuniões do aa. olá, meu nome é roberto e eu sou um alcoólatra e depois de uma pausa para todos me cumprimentarem de volta eu encheria o saco deles com minhas histórias de amor, de longas esperas, de jantares frustrados, de velas derretidas, de flores mortas, de garrafas vazias e de finais alternativos inventados pela imaginação.

 

3 comentários sobre “outra história de amor

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