auto meta para e as ficções

foto | alejandro guijarro
foto | alejandro guijarro

 

 

buscavam um escritor que fizesse autoficção e metaficção e, sobretudo, que não soubesse muito bem explicar os motivos pelos quais fazia o que fazia. queremos um escritor capaz de ser simultaneamente safo e ingênuo, explicaram aos dois ou três candidatos que se apresentaram. os três franziram a sobrancelha ao mesmo tempo quando ouviram a explicação, porque ela parecia completamente estapafúrdia, embora não tenham usado essa palavra. ou não tinham entendido direito? safo e ingênuo, insistiu o sujeito. aquilo mesmo, tinham escutado direito. um dos candidatos imediatamente se declarou desclassificado e abandonou a competição, não se sabe se por excesso de honestidade ou por ter compreendido bastante bem a barafunda que aquilo parecia ser. os outros dois, porque a vida não andava fácil para ninguém, permaneceram, porque havia certa quantia de dinheiro envolvida, em forma de bolsa literária, além da promessa meio vaga de promoção da pessoa e da obra, que afinal foi o primeiro estimulante para todos, ou pelo menos é como gostam de lembrar o episódio. os dois que restaram tinham metade das qualidades exigidas, infelizmente metades distintas. um era safo, o outro ingênuo e não parecia aos distintos senhores que colocar os escritores para trabalharem juntos fosse alternativa razoável, embora talvez, alguém aventou, pudesse ser uma solução. foi então e só então que se deram conta: o escritor que havia se retirado de cena primeiro, o que se abstivera alegando desculpas, ele era perfeito para a posição. dispensaram a dupla e foram atrás do escritor, que os recebeu com um sorriso amável, porque antecipou que era o que aconteceria. de quebra, ele tinha outra virtude não prevista, além de escrever autoficção e metaficção: também escrevia paraficção.

 

4 comentários sobre “auto meta para e as ficções

  1. marciatondello 24/03/2014 / 1:06

    me peguei a pensar em qual posição me encaixaria e cheguei à conclusão de que estaria no que foi embora. não por ser safa, mas por honestidade. e juro, agora me pego a pensar que queria muito que essa ficção fosse safa, não ingênua 😉 seria uma paraficção?

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    • paulopaniago 24/03/2014 / 12:05

      o motivo pelo qual ele saiu num primeiro momento me parece que também foi por honestidade, marcia. mas quando viu os resultados desastrosos que esses processos contêm, resolveu brincar com os organizadores da coisa toda.

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      • marciatondello 24/03/2014 / 15:02

        não sei se alcancei toda a complexidade da trama 😉

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