Sobre escrever e perguntas indiscretas

Ilustração | Radu Belcin
Ilustração | Radu Belcin

 

 

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A pergunta de um milhão de dólares que não para de ser repetida a todos os escritores em todos os tempos: por que você escreve? A impossibilidade de fornecer uma resposta satisfatória a essa pergunta fez com que ela se perpetuasse e fosse e seja invariavelmente repetida a todo aquele que se apresenta como escritor. Ah, escritor?, dizem, com a voz cheia de reticências. E se se sentem à vontade, lançam a pergunta sem se dar conta de quão ofensiva ela é. Ninguém lhes advertiu: jamais faça essa pergunta a um escritor. Mas por quê?, imagino que o interlocutor avançaria, intrigado. Por que não posso perguntar ao escritor o motivo ou os motivos pelos quais ele escreve? Por que você quis ser médico, arquiteto, advogado, essas perguntas não existem. Então, por que perguntar isso a um escritor? Acaso é um problema? Como se, ao perguntar o motivo, você desse ao pobre coitado a chance de se redimir e virar outra coisa, médico, engenheiro, advogado. Algo útil que tenha aplicação prática na vidas dos outros e dê dinheiro.

 

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A próxima pergunta para o escritor começa com adversativa: mas você vive de quê? À exceção daqueles dois ou três escritores que conseguem ganhar o suficiente para se sustentar e à família, os outros parecem estar fazendo isso apenas para satisfação da própria vaidade. Aliás, se é isso que o sujeito tem em mente quando pergunta ao escritor por que ele escreve, talvez uma resposta possível seja exatamente esta: escrevo para satisfação da minha vaidade. Não seria mal se ele acrescentasse um adjetivo bem petulante. Escrevo para satisfazer a minha vaidade incomensurável. A outra resposta que sugiro é ainda mais cheia de sarcasmo. E você, por que respira?, imagino que algum escritor devia ter a coragem de perguntar de volta. Seria pedagógico.

 

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Ou talvez, e isso é algo que deve ser considerado a sério, talvez a pergunta contenha outro componente. A qualquer momento o escritor pode escolher abandonar a literatura, não publicar mais nenhum livro, silenciar-se para sempre. O objetivo da pergunta então é garantir que o escritor pense a respeito dos motivos que o levaram a escrever e abandone de uma vez a atividade ou se assegure de que tomou a decisão certa. Caso abandone, sempre se pode pensar em ser médico, agrônomo, administrador de empresas. Sempre se pode tomar o exemplo de Rimbaud como guia e abandonar de uma vez por todas a literatura.

 

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Ou talvez ainda, a pergunta esconde outro componente sério. Se você escreve é porque tomou a decisão de se expor em público, de não se poupar. Mesmo que você faça a ficção mais ensandecida e diferente de tudo que lembre algo de sua vida pessoal, ainda assim é você quem está ali, exposto a chuva e sol, nu, completamente nu. De modo que a pergunta agora ganhou legitimidade. Por que você escreve em vez se proteger?, seria a íntegra da pergunta. Sempre se pode recorrer à terapia e tratar desse assunto de forma discreta. Escritores, pobres, são esses exibicionistas culturais que não parecem ter remédio, vão expor não só as partes externas do próprio corpo, mas às vezes também as vísceras, o sangue, a tralha toda. Pior, vão expor os sentimentos em praça pública. São completamente despudorados. Alguém ligue para os bombeiros, por favor, para que venham salvar o sujeito, colocar um cobertor sobre aquele corpo nu à vista de todo mundo e nos proteger dessa visão tão desoladora.

 

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