Amor e poesia

Arte | Agnes Cecile
Arte | Agnes Cecile

 

 

Então um dia ela embarafustou que queria descobrir o dia da semana em que tinha nascido. “Mas para que serve isso?”, perguntei. Ela revirou os olhos. “Você é um insensível, Arnaldo.” Aquele comentário doeu. Eu era poeta, devia ter o ouvido afinado para minúcias, era supostamente obrigado a compreender de forma imediata os motivos pelos quais ela queria saber o dia da semana em que tinha ocorrido o seu nascimento. Mas a poesia —- ou a ausência dela, cada vez maior, no meu caso —- tinha feito de mim um sujeito cético. Era empurrado contra a vontade em direção ao real cada vez com mais força e sei que ele é árduo e trata todo mundo por igual. Minha paciência com Dora estava tão escassa quanto a poesia que eu tinha nas veias e comecei a desenvolver a teoria segundo a qual no dia em que Dora saísse de minha vida ia levar na bolsa a última cota de poemas que escrevi. Depois disso eu estaria curado. Me ocorreu que se ela queria saber o dia da semana em que tinha nascido para poder ir embora no mesmo dia aquilo talvez me pudesse render um último punhado de versos tão bonitos quanto infelizes. Afinal, é disso também que se trata a poesia, da beleza da infelicidade.

 

2 comentários sobre “Amor e poesia

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