Viver disso

máquina-de- escrever

 

 

 

Eu estava lendo um romance longo e de repente, no meio da história, me deparei com uma frase provocadora. Peguei um lápis e sublinhei a frase. Talvez quisesse usar depois, entre aspas, mencionando o autor. Achei que a frase talvez definisse um pouco de mim. Dizia: “Eu vivo de escrever sobre cada mínimo constrangimento a que sou exposto”. Depois pensei que faltava algo. Porque comigo, o que acontece é que primeiro eu me submeto a situações constrangedoras, como se buscasse nelas algum tipo de alimento. Então depois me sinto habilitado a escrever a respeito do assunto. O constrangimento como fonte de assunto para a literatura, ri diante do espelho, para a minha cara amassada. Aquilo era constrangedor, olhar meu rosto no espelho, estando sozinho, ser obrigado a me encarar e acreditar que tudo bem, eu podia sobreviver àquilo. Talvez o pior fosse estar acompanhado, então insistir em olhar meu rosto no espelho e observar em seguida a outra pessoa me observando a observar meu rosto no espelho. Despir-me, que constrangedor, na frente de outra pessoa. Comer, prestar atenção ao movimento das mandíbulas enquanto o alimento é triturado pelos dentes. Qualquer coisa pode ser fonte para constrangimentos, se você pensar um pouco que seja a respeito do assunto. A respeitabilidade de certos cargos, a pompa, as circunstâncias, o grandioso e o ínfimo. A vida toda é muito constrangedora, bem pesados todos os detalhes. Nada parece escapar, se você tem o olhar da mente voltado para o tom que as coisas adquirem quando você decide prestar atenção a elas. Melhor mesmo são essas pessoas que não se intimidam por nada, mergulham na vida com a mesma desfaçatez com que se lançam às águas de uma piscina, destemidas, prontas para serem plenas na existência que escolheram levar. O que obviamente não é o meu caso. Eu talvez precise procurar um psicólogo, pensei. Melhor ainda, um psiquiatra, que me receite medicação. Doutor, há remédio para viver? Eu perguntaria, depois poderia ficar horas ruminando o constrangimento que era fazer uma pergunta daquelas. Há remédio, fora o suicídio, para o constrangimento da existência? Se eu fosse Fernando Pessoa estaria tudo bem fazer uma pergunta como essa. Mas sendo um cidadão completamente corriqueiro, o que eu pretendia ao perguntar isso ao psiquiatra, que provavelmente se veria compelido a aumentar a dosagem do que fosse receitar? Depois, durante o jantar, eu pediria ao garçom que trouxesse um suco, para que eu engolisse as pílulas receitadas. Então poderia me deter na observação dos demais clientes, sobretudo na mastigação enquanto os dentes trituravam alimentos. À espera de que o remédio começasse a fazer efeito e o constrangimento fosse entrando lentamente na névoa que assomaria em meus olhos.

 

6 comentários sobre “Viver disso

  1. MarciaTondello 29/04/2014 / 22:49

    Rá! Sou a rainha das situações constrangedoras. Nah! Rainha é um posto alto demais, mas acho que me fiz entender. Hoje mesmo, me enfiei em um e agora procuro um buraco para enfiar minha cara deslavada…hahaha. Identificação com a personagem aí…rs, E sim, mastigação é um processo muuuitooo constrangedor. Bem, eu acho 😉 Que desaforo!
    Até!

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    • paulopaniago 29/04/2014 / 23:09

      Eu tenho a sensação de procurar um buraco onde enfiar a cabeça e esquecer o constrangimento praticamente todo santo dia, Marcia. É um tipo de maldição, haha.
      Até.

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      • MarciaTondello 29/04/2014 / 23:55

        Pelo menos temos muito material para escrever. Tem que fazer limonada com esse limão, né, não? hahaha

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      • paulopaniago 30/04/2014 / 8:17

        Exatamente. Limonadas que geram caretas constrangedoras, diga-se de passagem.

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